Exploração de lítio na Bolívia: um futuro em suspenso

O lítio é há mais de uma década a promessa do desenvolvimento económico boliviano. Depois de vários avanços e recuos, o país aguarda as eleições de agosto para ver o seu futuro tomar um rumo.

É sobre a imensidão branca do Salar de Uyuni que parece assentar atualmente o futuro da Bolívia. Pelo menos, é este o palco da exploração de lítio no país, que detém a maior reserva mundial conhecida até à data. Juntamente com a Argentina e o Chile, forma aquele que é conhecido como «o triângulo do lítio».

Sabemos que este recurso está profundamente presente no nosso quotidiano, seja em equipamentos eletrónicos portáteis, seja nos automóveis movidos a energia, sendo que Portugal é aliás o quinto maior produtor mundial de lítio. O consumo anual de lítio pelo mercado mundial escalou até aproximadamente 40 mil toneladas em 2017, significando um aumento anual de cerca de 10% desde 2015. Desde esse ano e até 2018 os preços do lítio quase triplicaram, um indicador significante do rápido aumento da procura. No entanto, para a Bolívia, a sua exploração tem sido um processo demorado e complexo, pontuado por avanços e recuos, provocados também pela instabilidade política.

Atualmente, no contexto da atual crise económica e sanitária, a Bolívia repensa a sua estratégia de exploração de lítio, mas deixa as decisões fundamentais a cargo do futuro governo, que apenas será conhecido em Agosto. Talvez seja então importante um breve recuo ao passo, para compreender o presente e o futuro daquele que é considerado por muitos como o pilar da economia boliviana deste século.

O Salar de Uyuni, fonte do lítio boliviano e a planície salgada com maior extensão conhecida, foi durante muito tempo alvo de pouco interesse por parte dos bolivianos, que o consideravam uma mera anomalia geográfica. Nunca teve uma importância cultural, ao contrário de Tunupa e outras montanhas próximas.

Segundo dá conta à National Geographic, Patricio Mendoza, presidente do município de Uyuni, “As pessoas temiam que, ao caminharem sobre a salina, pudessem perder-se e morrer de sede ou que os seus lamas lesionassem os cascos no sal”.

Foi apenas na década de 80 do século passado que a planície salgada despertou o interesse de um operador turístico de La Paz, Juan Quesada Valda. Enquanto procurava um destino turístico capaz de competir com o lago Titicaca, encontrou um lugar como nenhum igual no mundo, e viu nele uma oportunidade de negócio. Uyuni começou por ser, então, um destino de férias que recebia casamentos, corridas de automóveis e cursos de Yoga. Agora, querem transformá-lo no lugar de exploração daquilo que García Linera promete ser o “combustível que alimentará o mundo”. Mas será a Bolívia capaz de industrializar a exploração nos próximos anos?

Um lugar particular para a exploração de lítio

A Bolívia é um vértice particular do «triângulo de lítio». O país tem adiante um obstáculo de cariz científico que a Argentina e o Chile não precisaram de solucionar. É que a produção de lítio com qualidade para baterias a partir de salmoura, pressupõe a separação do cloreto de sódio do cloreto de potássio e do cloreto de magnésio, sendo que a remoção deste último é particularmente dispendiosa. E na Bolívia, não só os volumes de precipitação são significativamente mais elevados (o que poderá tornar o processo de evaporação mais lento), como as suas jazidas de lítio possuem um teor mais elevado de magnésio. Assim, a operação de separação do magnésio é bastante mais complexa para os bolivianos.

O Salar de Uyuni tem ainda algumas particularidades a nível geológico e ambiental, que o tornam um lugar eticamente mais sensível à exploração. A superfície do salar é um importante lugar para a nidificação de flamingos e, além disso, há ainda o risco elevado de a extração de lítio alterar a “Casa do Inca”, uma ilha quando o salar era um lago, em tempos pré-históricos, e vestígio de um antigo vulcão coberta por cactos e algas fossilizadas.

Salar de Uyuni [Photo: Cédric Gerbehaye/National Geographic]

O Ouro Branco ou a promessa de melhores condições de vida para os bolivianos

A exploração de lítio boliviana está entregue a uma empresa estatal, a Yacimientos de Lítio Bolivianos (YLB), que desde novembro de 2019 passou a ter um novo governo, com a chegada do governo de transição de Jeanine Añez. No entanto, uma das incógnitas recai sobre a possibilidade de manter a palavra de ordem “100% Estatal!”, que tanta esperança de melhores condições de vida tinha dado à população residente em torno do salar.

Existe ainda hoje na Bolívia uma resistência a investimentos privados. No entanto, segundo o economista Juan Carlos Zuleta, produzir recursos de evaporação, encontrados em salmoura, requer um conhecimento que o país não tem, um indicativo da necessidade de uma parceria estrangeira. Por outro lado, seria difícil uma aliança com uma empresa estrangeira que aceitasse ceder o controlo ao Estado.

 “Ao longo da nossa história, não criámos uma cultura capaz de combinar os nossos recursos brutos com pensamento inteligente. Isto deu origem a um país rico em recursos naturais, mas socialmente muito pobre.”

Álvaro García Línera, ex vice-presidente da Bolívia

Durante anos, Evo Morales avançou previsões para a produção de baterias de lítio e automóveis elétricos que seriam atrasadas pela necessidade de investimentos avultados e de uma elevada sofisticação tecnológica. Apenas em 2018 a Bolívia encontrou uma parceira estrangeira, a ACI Systems Alemania, empresa alemã que investiria 1.140 milhões de euros em troca de uma posição acionista de 49%. No entanto, a 3 de novembro de 2019, o governo de Evo Morales cedeu a uma onda de protestos e revogou a parceria com a empresa alemã.

Uma onda de protestos e de apreensão

É com um misto de apreensão e entusiasmo que a população local recebe a ideia de explorar o salar. Sabem que o funcionamento em pleno da fábrica irá equivaler a um negócio milionário, mas questionam os beneficios que trará para a comunidade. Mais postos de trabalho, melhores salários, até a criação local de uma faculdade de ciência química e bolsas para jovens. São interrogações que permanecem por responder, já que o governo pouco tem informado as comunidades locais e existem inclusive municípios nos quais ninguém está envolvido na exploração.

Em outubro de 2019, o departamento de Potosí chegou mesmo a assitir a marchas de protesto, bloqueios de ruas e greves de fome de alguns manifestantes, que exigiam a revogação da sociedade mista entre a YLB e a ACI Systems (que viria acontecer, como referido acima) e o aumento dos royalties para a exploração de lítio em Uyuni.

Estão, portanto, em aberto várias questões decisivas acerca de como e com quem se deve avançar para a industrialização do lítio e de como se dividirão os lucros. Tanto a população local como as autoridades dos onze governos municipais que fazem fronteira com o salar querem segurar o martelo que decidirá o futuro da região. Exigem participar nas decisões relacionadas com a exploração de lítio, a escolha de sócios e até a nomeação do titular da YLB.

Por enquanto, o governo provisório não está a tomar decisões fundamentais sobre o assunto, já que se trata de um tema estrutural para o futuro do país. O seu foco é apenas resolver questões legais relacionadas com a rutura abrupta que o governo de Morales levou a cabo com a ACI Systems. O futuro do Ouro Branco na Bolívia aguarda, assim, as eleições adiadas para agosto.

Fontes: Nathional Geographic, BBC News, Globo, Deutsche Welle, Diálogo Chino

Imagem de capa: Salar de Uyuni (Foto: Uyuni Expeditions)