Nova Zelândia: na corrida pela neutralidade carbónica

Na Nova Zelândia, há muito que a questão sobre a existência, ou não, de alterações climáticas deixou de fazer sentido. Os efeitos do aquecimento global manifestam-se e o Governo está em contra-relógio.

Nas últimas quatro décadas, estima-se que a Nova Zelândia tenha perdido 25% do gelo dos seus glaciares. Ao longo do último século, a temperatura aumentou 1 Cº e o nível médio do mar subiu cerca de 20 centímetros. Quatro mil espécies nativas estão ameaçadas ou em risco de extinção. Os dados são do Environment Aotearoa 2019, um relatório do Ministério do Ambiente e da Stats NZ.

No final de 2019, foi aprovada na Nova Zelândia a legislação que definirá como atingir a neutralidade carbónica até 2050, em linha com o Acordo de Paris, que quer limitar a 1.5 Cº o aumento da temperatura global.

Em maio do mesmo ano, o secretário geral da ONU, António Guterres, elogiou a primeira ministra, Jacinda Ardern, pela liderança na ação climática global. Antes de ser aprovada esta lei, 80% da eletricidade do país provinha já de fontes de energia renovável. O governo planeia, ainda, a transição para o uso de veículos elétricos e a plantação de mil milhões de árvores até 2028.

“Ladra, mas não morde”

Se, por um lado, a legislação é vista pelo governo como vinculativa, por oposição, a Greenpeace da Nova Zelândia descreve-a como ambiciosa, mas ineficaz, sem medidas de responsabilização daqueles que não a cumprirem. Nas palavras de Russel Norman, diretor executivo da organização, “ladra, mas não morde”.

Rebanho na Ilha Sul, em 2017. O metano produzido por animais ruminantes constituía 34% das emissões de gases com efeito de estufa na Nova Zelândia em 2017. [William West/AFP via Getty Images]

O caminho até à neutralidade carbónica é sinuoso. A agricultura, motor da economia do país, com uma contribuição de 11 mil milhões de dólares neozelandeses para as contas do Estado, é, em simultâneo, o maior responsável pelas emissões de gases com efeito de estufa. Para cinco milhões de habitantes na Nova Zelândia, existem dez milhões de vacas e quase 30 milhões de ovelhas.

Em resposta à preocupação com a sobrevivência da indústria pecuária, o governo criou objetivos específicos para a diminuição das emissões de metano, produzido por animais ruminantes, distintos daqueles definidos para atingir a neutralidade carbónica. Ainda assim, os Agricultores Federados da Nova Zelândia insistem: “o governo desistiu da agropecuária”. Segundo o coletivo, para reduzir o nível de emissões de metano é inevitável cortar na produção.

Referências: National Public Radio, Radio New Zealand, ONU, Environment Aotearoa 2019, Aljazeera

Foto de capa: A primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ao centro, visita o Parque Nacional de Pūkaha, em novembro de 2019. [Hagen Hopkins/Getty Images]