A maior crise humanitária agrava-se em tempos de pandemia

Passados cinco anos de conflitos pouco se avançou na guerra que menos atenção dos media recebe. Mais de 25 milhões de vidas continuam em risco vivendo dia a dia a miséria, fome e destruição da guerra, ao que se junta, agora a pandemia COVID-19.

O médio Oriente tem dentro si vários fatores de instabilidade: zonas cruciais para o mundo globalizado (Estreito de Ormuz, Canal do Suez) que atraem interesses de todos os cantos do mundo, divisões fronteiriças arbitrárias que originaram desequilíbrios étnicos sobre já complicadas divisões religiosas, assimetrias regionais (zonas densamente populadas com falta de recursos e zonas pouco populadas com amplos recursos petrolíferos), conflitos entre Israel e o mundo árabe, conflitos entre sunitas e xiitas.

É devido a este difícil contexto que esta região tem servido de palco a várias crises humanitárias. Especialmente durante a Primavera Árabe surgiram vários movimentos anti-governo que rápida e frequentemente passaram a longas e dolorosas guerras civis. De todas, a mais negligenciada tem sido a Guerra Civil no Iémen, que apesar de ter começado em 2015 apenas recentemente tem começado a receber a atenção dos media mundiais.

Origem

O Iémen não escapou à Primavera Árabe, tendo a população protestado e revoltado para depor o governo ditatorial de Ali Abdullah Saleh. Entre as principais tarefas que se exigiram do seu sucessor Abdrabbuh Mansour Hadi, antigo vice-presidente de Saleh, contavam-se a inclusão da minoria Houti no governo, a redução do desemprego e o aumento da segurança no país.

No entanto, nos primeiros anos de governo Hadi foi incapaz de mostrar resultados positivos pelo que, temendo que o novo presidente se eternizasse no poder sem resolver os problemas da população, a minoria Houti (com apoio de alguns fiéis ao ex-presidente Saleh), rebelou-se contra este. Os rebeldes rapidamente tomaram a capital Iemenita e outras grandes cidades, levando à fuga do governo “legitimo” de Hadi para Riade.

No caos da guerra, um terceiro movimento separatista ganhou tração e entrou no conflito como terceiro jogador, a favor de Hadi, o Conselho de Transição do Sul, que recentemente reclamou para si autonomia completa sobre parte do território iemenita.

Fatores que agravam a situação

O presidente Hadi sempre contou com o apoio da Arábia Saudita, o grande vizinho sunita ultraconservador do Iémen. Este apoio garantiu a Hadi a ajuda dos EUA, França e Reino Unido que prestam apoio militar e logístico aos sauditas.

O movimento rebelde Houti conta com o apoio do Irão, a grande potência xiita ultraconservadora da região, embora o apoio militar efetivo seja um tópico de debate, relatórios estadunidenses afirmam que os drones utilizados pelos rebeldes são idênticos aos iranianos.

O presidente Hadi, que governa a partir da capital saudita Riade, está desesperado por conseguir retomar controlo das grandes cidades iemenitas, mas o controlo de poços de petróleo pelos rebeldes facilitam o seu financiamento e dificultam a resolução pacífica do conflito.

Crise Humanitária

Apanhados no meio dum conflito interno viram-se 27 milhões de habitantes com um desenvolvimento já deficiente, cada vez mais destruído e com menos capacidade de resposta a todo o tipo de necessidades da população. As praticamente inexistente infraestruturas de saúde do país são incapazes de responder às vítimas de ferimentos, cólera, e, em particular, casos de COVID-19.

Mais de cem mil pessoas morreram desde 2015 e mais de três milhões foram obrigadas a sair de suas casas. A UNICEF estima que mais de 80% da população necessite de ajuda humanitária e a Save the Children que mais de oitenta mil crianças tenham já morrido de fome.

Resolução

O conflito permanece, para já, sem fim à vista. Não só nenhum dos lados está verdadeiramente comprometido na construção da paz (veja-se os constantes incumprimentos dos cessar-fogos decretados e negociados com a ONU) como também nenhum avanço substancial tem sido feito por nenhum dos lados no plano estratégico da guerra. A divisão do controlo territorial permanece essencialmente o mesmo, cabe principalmente às grandes potências envolvidas colocarem o fim à violência, passos que já têm sido dados pelos Emirados Árabes Unidos, mas que a Arábia Saudita não tem mostrado intenção de dar.

Fontes: Expresso, BBC, Observador, Middle East Monitor

Imagem de destaque: Resultado de um ataque aéreo levado a cabo pela Arábia Saudita a 1 de Setembro de 2019. [Foto: Mohammed Hamoud/Anadolu Agency]