Refugiados Rohingya continuam em crise no Bangladesh

O fluxo de refugiados da minoria Rohingya de Myanmar intensificou-se nos últimos anos.

O Bangladesh abriga atualmente mais de um milhão de refugiados birmaneses, a maioria crianças, que fugiram à violência em Myanmar. As condições de vida dos refugiados da minoria Rohingya são pioradas pelo clima da região e pela falta de recursos médicos e tecnológicos.

O acolhimento de refugiados no Bangladesh começou em 1977 com a perseguição dos Rohingya no país vizinho da Birmânia – atualmente conhecido como Myanmar – durante a operação “Dragão Rei”. Cerca de 200.000 pessoas são realocadas. Embora a maior parte dos refugiados tenham sido repatriados em 1979, muitos permanecem no Bangladesh.

Em 1989, com as reformas políticas e militares que oficializam o estado de Myanmar, os Rohingya foram novamente perseguidos, torturados e reprimidos, levando a um segundo êxodo para o Bangladesh. Novamente, cerca de 250.000 pessoas atravessam a fronteira para o país vizinho, instalando-se em campos de refugiados sem condições sanitárias e alimentares.

Refugiados Rohingya a entrarem no Bangladesh depois de fugirem de Myanmar (Foto: Zlatica Hoke / VOA)

Três anos depois, em 1992, os estados do Bangladesh e Myanmar chegam a um acordo para impedir o acolhimento de mais refugiados e forçar a repatriação dos Rohingya, o que causa a terminação de maior parte dos campos.

Em 2017 uma nova vaga de conflitos causa um terceiro êxodo que ainda não terminou. Os campos de refugiados do Bangladesh não estão preparados para o influxo enorme de pessoas, causando pânico e falta de condições gerais para todos os refugiados de Myanmar.

Falta de condições

Mais de 50.000 abrigos foram construídos nos campos de refugiados no Bangladesh, no entanto, estima-se que cerca de 75% das famílias tenham de partilhar abrigo.

A juntar-se ao esmagador excesso de pessoas estão condições atmosféricas não favoráveis. Em 2006, cerca de 79% dos abrigos restantes foram destruídos por cheias e deslizamentos de terra. A época chuvosa, entre abril e outubro, é uma ameaça ao bem estar dos refugiados. As zonas de costa estão também sob o perigo de tempestades marítimas.

Em termos médicos, a falta de alimentos e recursos é preocupante. Subnutrição, diarreia e problemas respiratórios contam-se entre os problemas principais das crianças Rohingya. Segundo a OMS, entre 5 de setembro e o fim de outubro de 2019, 120 pessoas testaram positivo para cólera.

Devido às más condições de habitação e à falta de espaço, doenças epidémicas são preocupações constantes. Este ano, é a Covid-19 o maior receio da OMS. Na segunda semana de agosto, registaram-se 3500 casos de infeção na região de Cox’s Bazar, mas apenas 78 nos campos de refugiados. Devido ao isolamento da região o efeito da pandemia foi contido, mas é um perigo constante para os refugiados subnutridos.

Tensão política

Entretanto, a exaustão dos recursos do Bangladesh exerce tensão nas relações políticas com Myanmar. Em março de 2019 o país vizinho anunciou que não receberia mais refugiados. Os refugiados, por sua vez, recusam-se a regressar a Myanmar sem receber cidadania, e fogem da perseguição étnica.

Um ano depois, o Bangladesh mantém a sua decisão. Em abril de 2020, dezenas de Rohingya morreram num barco que esperava para atracar na costa do país.

O futuro da população Rohingya é incerto, já que as condições de vida nos campos de refugiados é sub-humana e que o retorno para Myanmar está marcado por memórias de perseguição e violência há quase 50 anos.

O próprio governo de Myanmar tornou o seu regresso mais improvável ao destruir vilas Rohingyas para construir quartéis da polícia e edifícios estatais.

Fontes: BBC, UNHCR, OMS, UN Refugees, Médicos Sem Fronteiras

Imagem de destaque: Refugiados Rhongya em campo de refugiados no Bangladesh, 2017 (Foto: Zlatica Hoke / VOA)