Exilados colombianos, as vítimas esquecidas do conflito armado

Estima-se que cerca de oitocentos mil refugiados tenham fugido da Colômbia com motivações políticas e sociais.

Começaram a atravessar a fronteira nos anos 60, devido ao conflito armado no seu país de origem, que, de acordo com o relatório do Centro Nacional Colombiano de Memória Histórica, já fez mais de 260 mil mortos, entre eles maioritariamente civis. Os números oficiais registam 400.000 colombianos com estatuto de refugiado fora das fronteiras do seu país. No entanto, os dados não oficiais, recolhidos por organizações da sociedade civil, somam o dobro do número de refugiados. Assim como os números, também as suas histórias permanecem na sombra, esquecidas pelo Estado Colombiano.

Uma história com mais de cinquenta anos

Até hoje, cidadãos colombianos são forçados a abandonar o seu país de origem, rumando maioritariamente ao Equador (país com maior número de exilados), Panamá e à fronteira colombo-venezuelana, mas também a vários países europeus. A primeira vaga surgiu nos anos 60 e 70, composta por líderes de esquerda, principalmente jornalistas, académicos, políticos e pessoas pertencentes a movimentos sociais, vítimas de perseguições individuais. Já nos anos 80 e 90 ocorre uma expulsão massiva de civis e nos anos 2000, com a degradação do conflito, começaram a ser expulsas as pessoas mais próximas das fronteiras (Putumayo, Andén Pacífico e Urabá) devido à concorrência de certos atores sociais por lugares geoestratégicos e ao aumento narcotráfico.

Mas apesar da elevada dimensão do fenómeno, os exilados colombianos não têm sido reconhecidos como vítimas do conflito armado. É que a condição de exilado, de forma distinta da do emigrante (que apesar de dolorosa pressupõe uma procura de melhores condições de vida, um rasgo de esperança), caracteriza-se por uma necessidade compulsória de afastamento do lugar de origem e pelo imperativo de preservação da própria vida.

Segundo apurou a investigação do Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH), que deu origem ao livro “Exilio Colombiano: huellas del conflicto armada más allá de la frontera” e que pretendia dar visibilidade ao fenómeno e às histórias que ele encerra, a população exilada experienciou três momentos chave. Um primeiro momento de dor pela partida e de raiva para com o país, já que o Estado Colombiano não assegurou os seus direitos e uma fase de readaptação em que se organizaram e criaram laços nos novos lugares que, por sua vez, transitou para uma fase de nostalgia e desejo de regresso, de modo a participarem no processo de paz que está em marcha no país.

Contudo, o desafio do retorno continua por responder, dado que o Estado Colombiano não assegurou ainda o regresso desta população em condições de segurança e dignidade, com rotas demasiado básicas e protocolos que não respondem às necessidades da população exilada.

Exílio: uma forma de violência não reconhecida

Há, em primeiro lugar, um sub-registo da população exilada. De acordo com a investigação, apenas quatro porcento do número total de exilados se inscreveu no registo da Unidade para as Vítimas. Além disso, existem casos de exilados que adquiriram a nacionalidade do país onde passaram a residir e que, apesar de terem sido também vítimas da guerra, não são contabilizados nas estatísticas. Em segundo lugar, esta é uma condição não reconhecida ainda como parte da história da Guerra Civil Colombiana e também como uma forma de violência pelo Estado Colombiano.

Para solucionar este fenómeno complexo, o primeiro passo estará precisamente no reconhecimento dos exilados como vítimas do conflito armado. E logo em seguida, por desocultar as suas histórias: segundo o relatório do CNMH, é essencial que entidades como a Comissão da Verdade e a Jurisdição Especial para a Paz tenham em conta os seus depoimentos no processo de construção de paz que está a avançar no país.

Fontes: Centro Nacional de Memória Histórica, Human Rights Watch, Verdad Abierta, Observador, Deutsche Welle

Foto de capa: Colprensa/ Vanguardia Liberal