O ‘genocídio’ aborígene no Canadá

Durante 30 anos, as políticas canadianas levaram à morte de mais de 4.000 aborígenes. Hoje em dia, a administração Trudeau encontra forte criticismo na sua abordagem da situação.

Quando Justin Trudeau foi eleito primeiro-ministro do Canadá, em 2015, prometeu corrigir as graves injustiças cometidas pelo Estado à minoria aborígene. “O nosso objetivo”, disse, “é aceitar completamente as nossas responsabilidades e as nossas falhas, como governo e como sobreviventes”.

O relatório “Reclaiming Power and Place“, divulgado em junho de 2019, estima que mais de 4.000 mulheres e raparigas indígenas terão desaparecido ou sido assassinadas nos últimos 30 anos, mas o número real será muito maior.

Os autores do relatório equiparam as práticas do governo canadiano a genocídio, de acordo com a definição do termo pela ONU, e acrescentam, “genocídio é a soma das práticas sociais, premissas e ações” descritas no documento.

Embora o Canadá seja um dos países do mundo com maior qualidade de vida – classificado em 12º em Índice de Desenvolvimento Humano no Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019 – a situação das minorias aborígenes revela uma realidade oposta.

Genocídio cultural

Em 2015, o juiz Murray Sinclair declarou que o Canadá teve um período de “genocídio cultural”. Em questão estava a participação forçada de crianças indígenas em escolas residenciais para Índios, financiadas pelo Estado e dirigidas pela Igreja, entre 1876 e 1996.

As escolas residenciais assumiam-se responsáveis pela “reeducação” da comunidade aborígene. Cerca de 6.000 crianças terão morrido nestas instituições missionárias – um número incerto uma vez que o governo parou de registar os óbitos a partir de 1920.

As escolas para Índios terão também separado mais de 150.000 crianças de várias tribos dos seus pais, que viriam a sofrer abusos emocionais, físicos e sexuais. Entre os sobreviventes são relatados casos de violação e subnutrição. A cultura indígena do Canadá era, a pouco e pouco, destruída.

Mesmo após encerradas estas instituições, a minoria aborígene continua a ser tratada como classe inferior.

Em 2015, o governo canadiano investia menos 3.000 dólares em estudantes nas reservas aborígenes, em relação à média nacional. Alguns sobreviventes das antigas escolas esperam até hoje pela compensação por danos causados, vedada por um governo federal que tenta evitar ações legais. O estado de Ottawa, por exemplo, esperou que um caso fosse encerrado para divulgar milhares de documentos relevantes, gerados numa investigação policial sobre abuso infantil.

Rapazes e raparigas na Indian Day School, Trout Lake [Ontario], sob supervisão do reverendo Leslie Garrett por BiblioArchives / LibraryArchives

Tratamento desigual

O relatório “Reclaiming Power and Place”, que terá sido encomendado pela administração Trudeau em 2015, “revelou os abusos e violações de direitos indígenas persistentes e deliberados como causa das taxas elevadíssimas de violência contra mulheres e raparigas indígenas e pessoas 2SLGBTQQIA (two-spirit, lesbian, gay, bisexual, transgender, queer, questioning, intersex and asexual)“.

Não obstante as 231 recomendações para ações governamentais feitas pelos autores do relatório, o governo de Trudeau demora a responder aos problemas da população indígena, e os críticos acusam-no de promessas vazias de uma “reconciliação total”.

Noutros moldes, o governo canadiano continua a agir contra a vontade das minorias aborígenes, ao construir um oleoduto no território da tribo Wet’suwet’en. Face aos protestos da população, a polícia interveio, deteve e hostilizou a comunidade índia.

Fontes: BBC, The Guardian, Global News

Foto de destaque: “Indian Residential School, [Fort] Resolution, Northwest Territories / Pensionnat indien catholique de [Fort] Resolution (Territoires du Nord-Ouest) de BiblioArchives / LibraryArchives [licensed under CC BY 2.0]