A luta secular dos indígenas americanos pela liberdade e identidade

Os indígenas americanos, conhecidos pelo termo estigmatizante "peles vermelhas", lutam há séculos pela sua sobrevivência, desde os massacres na colonização norte americana, à falta de apoios durante a pandemia da Covid-19.

Os nativos americanos constituem, hoje, cerca de 1,6% da população dos Estados Unidos da América. Vindos da Eurásia, os antepassados dos atuais cidadãos americanos atravessaram Beringia, o atual Estreito de Bering, que une a Rússia aos Estados Unidos, para chegar a solo americano. O povo Clovis, do qual descendem 80% dos indígenas estadunidenses, pisou a futura terra das oportunidades há 13 000 anos.

Chegados os colonos europeus, no século XVI, a população nativa confrontou-se com novas doenças, guerras, massacres ou limpezas étnicas, escravatura, muitas vezes de mulheres e crianças, e começou a diminuir. Muitos indígenas foram expulsos das terras ancestrais e sagradas que povoavam há séculos e perderam os seus direitos em tratados unilaterais e discriminatórios.

Violência gerou violência e as reações dos nativos, nem sempre pacíficas, alimentaram o mito do índio selvagem. O governo dos Estados Unidos autorizou cerca de 1500 ataques aos povos indígenas. No final do século XIX, com o fim das Guerras Indígenas nos Estados Unidos, existiam menos 10 milhões de nativos americanos, reduzidos a 5 milhões de pessoas.

As motivações do ódio não são novidade: os índios eram selvagens e tinham de ser apresentados forçosamente à civilização; a sua cor de pele e costumes diferentes tornavam-nos inferiores; as suas terras e recursos naturais eram abundantes e o governo americano queria usá-los para benefício próprio. A falta de compreensão conduziu à agressão. Os nativos americanos foram massacrados e expulsos de suas casas e os militares responsáveis por esses atos foram condecorados pelo Governo.

Os indígenas e as políticas americanas

Entre 1887 e 1933, as políticas americanas procuravam a assimilação dos nativos, forçando-os a usar as suas roupas, adotar o mesmo estilo de vida, língua e religião; facilitaram a aquisição de terras indígenas pelo homem branco e a educação era fundamental para as crianças aprenderem que deviam “matar o índio e salvar o Homem”. Atualmente, muitos indígenas são vítimas de homicídio e desaparecimento. Em 2019, a administração Trump criou uma unidade de trabalho que visa investigar estes acontecimentos.

Em 1924, foi concedida nacionalidade americana a todos os indígenas que ainda não a tinham adquirido. Em teoria, os nativos americanos estavam completamente incluídos na sociedade, mas falhavam direitos como o direito ao voto, principalmente nos Estados do Oeste. A maioria dos indígenas “vivia na pobreza, com alojamento inadequado e reduzidos cuidados de saúde”, reporta o History Today.

Avanços e recuos nas legislações, tentativas de assimilação malogradas e investidas para o término das reservas onde muito indígenas ainda viviam, conduziram, nos anos 60, ao movimento Red Power. O movimento foi bem sucedido em garantir a proteção dos nativos americanos em tratados e leis, na Constituição Americana e ao nível da soberania e autodeterminação do povo.

Desafios atuais

Atualmente, os povos indígenas, como minoria, enfrentam desafios na proteção das suas terras sagradas, necessárias para a construção de oleodutos. Nas escolas, os alunos nativos americanos têm maior probabilidade de suspensão e são dirigidos para programas educacionais para “alunos de recuperação e evasivos”. Uma jovem mãe indígena é expulsa de equipas desportivas, mas uma jovem branca, na mesma situação, não é. A conclusão é de uma investigação da ProPublica com o The New York Times, em 2019, no distrito escolar de Wolf Point em Montana.

Durante a pandemia do novo coronavírus, os índios americanos têm sofrido de forma desproporcionada relativamente à restante população, mas os números não traduzem essa realidade. Sistemas de saúde com financiamentos reduzidos, insegurança alimentar, alojamentos sobrelotados que prejudicam o distanciamento social, fazem com que os indígenas americanos, em particular os que vivem nas reservas, tenham maior probabilidade de contrair Covid-19. Contudo, nos registos hospitalares não consta, na maior parte das vezes, a raça ou etnia do paciente, o que impede o total entendimento do impacto do vírus nas comunidades indígenas.

Fontes: BBC; Canal História; History Today; ProPublica; Reuters; The New York Times

Imagem de capa: AP Photo/Manuel Balce Ceneta