Angola é palco de opressão ao jornalismo

Seis jornalistas detidos na cobertura de manifestação em Luanda. Marcha da população angolana exigiu melhores condições de vida, mais emprego e introdução de eleições autárquicas no país.

A busca pela verdade dói. A quem a procura, mas acima de tudo à democracia que o jornalismo representa.

No sábado, dia 24 de Outubro, seis jornalistas foram detidos enquanto realizavam o seu trabalho na cobertura de uma manifestação em Luanda. Foram impedidos de realizar as suas funções três jornalistas da Radio Essencial, bem como o seu motorista, dois jornalistas da TV Zimbo (um repórter e um operador de câmara) e ainda um fotógrafo da agência de notícias francesa AFP.

A marcha, convocada por ativistas da sociedade civil, teve a adesão do partido da União Nacional para a Independência Total de Angola assim como outras forças da oposição, e teve como propósito a reivindicação de melhores condições de vida para a população angolana, tendo ainda a população presente exigido a realização das primeiras eleições autárquicas em Angola.

Em declarações à LUSA, e segundo o Jornal de Negócios, o presidente do Sindicato de Angola (SJ), Teixeira Cândido, repudiou as detenções realizadas pela polícia angolana. Ainda segundo Teixeira Cândido, a polícia terá obrigado o operador de câmara a apagar as imagens adquiridas da manifestação, e terá agredido o fotógrafo da AFP, mesmo depois da identificação do mesmo como jornalista.

Citado no artigo publicado pelo Expresso, o fotógrafo Osvaldo Silva conta que foi espancado e agredido por cassetetes, seguido da apreensão do seu telemóvel, após a identificação do mesmo enquanto repórter em exercício das suas funções. “Eu estava no chão, começaram a bater e eu disse que era jornalista, mas não quiseram saber”, relata Osvaldo Silva. O fotógrafo conta também que possuía a credencial de jornalista, mas que a mesma lhe foi “arrancada” pela polícia, que o coagiu a apagar as imagens que possuía na máquina fotográfica.

Jorge Simba, outro jornalista da AFP, contou à LUSA que foi igualmente obrigado a apagar as imagens obtidas e impedido de cobrir a manifestação. “Se nós estamos credenciados como jornalistas, estamos autorizados a cobrir todos os eventos. O meu trabalho é esse, fazer a recolha de imagens para mostrar o que estava a constatar e fiquei sem nada”, critica o jornalista.

A manifestação ficou ainda marcada pelo recurso a cavalaria, brigadas caninas e gás lacrimogéneo, resultando em 40 detidos, segundo o deputado da UNITA Nelito Ekukuiu, também este deputado vítima de agressões por parte da polícia. Os mais recentes números adiantados pela LUSA apontam, no entanto, para mais de 100 detidos.

De acordo com o Jornal de Angola, Joana Lima, governadora de Luanda, considerou a manifestação “um ato de vandalismo e desacato às autoridades”, e justificou o términus da marcha com “cenas de violação das medidas contidas no Decreto Presidencial em vigor desde as primeiras horas de ontem”, sublinhando ainda a proibição de ajuntamentos.

As detenções resultam, segundo a SIC Notícias, em 104 arguidos, acusados de desobediência ao decreto presidencial 276/20, de 23 de outubro, com medidas mais restritivas face à Covid-19, que incluem a proibição de ajuntamentos públicos com mais de cinco pessoas, quatro ofensas corporais voluntárias e dois crimes de danos voluntários sobre bens da Polícia Nacional. O julgamento teve início esta terça-feira.

Os jornalistas já foram, entretanto, libertados.

Fontes: Expresso, Jornal de Negócios, SIC Notícias, Jornal de Angola, LUSA

Imagem de Destaque: VOA Angola