Rohingya. Refugiados mobilizados forçadamente para ilha remota

Depois de ser rejeitada e violentada pelo seu país de origem, a comunidade maioritariamente refugiada está agora em vias de ser transferida para uma ilha nunca habitada e em risco de submersão.

O Bangladesh está, desde dezembro, a transportar milhares de refugiados rohingya para Bhasan Char, uma ilha remota e inabitada na Baía de Bengala, a horas de distância do continente. O governo afirma que se trata de uma estratégia para resolver a sobrelotação dos campos de refugiados de Cox’s Bazar, onde se encontra a maioria dos refugiados rohingya.

A minoria muçulmana em questão já luta contra largos anos de perseguição e foi obrigada a fugir do seu próprio país maioritariamente budista, isto é, da Birmânia ou Myanmar, como é hoje reconhecido. Foi a partir de 1948 que os rohingya deixaram de ser reconhecidos enquanto cidadãos e por consequência viram-se privados de todos os direitos fundamentais, desde o direito à saúde, à educação, à propriedade privada ou mesmo ao matrimónio. Em 2017, registaram-se diversos ataques do exército birmanês contra a minoria rohingya, que vivenciou situações como destruição de vilas e massacres de famílias. Trata-se de uma “limpeza étnica”, segundo António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas.

O clima político em Myanmar torna-se também cada vez mais instável e na madrugada desta segunda-feira, acionou-se o estado de emergência, depois da chefe do governo, Aung San Suu Kyi, e outras figuras do poder serem detidos por militares, que assumiram o controlo do país.

A insegurança e discriminação mantêm-se ainda hoje e o Bangladesh, o país fronteiriço, é quem mais acolhe os rohingya que tentam fugir. Só em 2017, mais de 700 mil pessoas passaram a fronteira. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estão alojadas na área de Cox’s Bazar cerca de um milhão de refugiados da etnia.

Neste momento, o governo do Bangladesh protagoniza uma nova onda de perseguição direcionada à minoria étnica ao iniciar a transferência desta para uma ilha inabitada, frequentemente atingida por fortes inundações e ciclones, que até há duas décadas estava submersa.

A ONU já veio a comunicado informar que não foi avisada nem pôde intervir em qualquer decisão governamental sobre a transferência dos refugiados para Bhasan Char, uma operação “rodeada de secretismo”, segundo a ACNUR. A mesma reforça que é necessário “um estudo prévio por parte de uma equipa técnica” para assegurar a segurança da medida. Diversos grupos de ajuda humanitária e de defesa dos direitos humanos pediram que a transferência seja suspensa.  

“Os rohingya nos campos de Cox’s Bazar enfrentam muitos problemas e os campos estão sobrelotados e são imperfeitos, mas transferir pessoas para uma ilha isolada onde não têm proteção ou o apoio de agências humanitárias internacionais ou liberdade de movimento não é a resposta (…) Aquilo não é mais do que um centro de detenção”, afirmou Ismail Wolff, da Fortify Rights, uma organização de direitos humanos.

A minoria rohingya, que segundo a ONU é “um dos povos mais discriminados do mundo”, enfrenta assim mais uma fase de opressão numa história de injustiça que parece não ter fim.

Fontes: Euronews; CNN; Reuters; Público; Expresso