O problema da nutrição em Timor-Leste

O mais recente relatório da ONU evidencia o grave problema da subnutrição no Sudeste Asiático, e em Timor-Leste em particular.

O relatório “Análise Regional da Ásia e Pacífico sobre Segurança Alimentar e Nutrição 2020: Dietas Maternais e Infantis no Centro da Melhoria da Nutrição” concluiu que cerca de 40% da população timorense sofre de subnutrição. É o valor mais alto de todo o Sudeste Asiático e o segundo maior registado em todo o continente asiático, sendo apenas ultrapassado pela Coreia do Norte, onde mais de 45% da população sofre de subnutrição.

O estudo organizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, em articulação com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, com o Programa Alimentar Mundial e com a Organização Mundial de Saúde, conclui que 57% das crianças com menos de 5 anos de idade em Timor-Leste sofrem de problemas que impedem o normal crescimento. Problemas como nanismo – “stunting”; debilitação infantil – “wasting”; ou obesidade – “overweight”. Também neste indicador, Timor-Leste ocupa a 2ª pior posição, sendo ultrapassado apenas pela Papua Nova Guiné (66%).

Em relação ao nanismo, Timor-Leste regista o valor mais elevado entre todos os países analisados. Mais de 50% das crianças timorenses com idade inferior a 5 anos têm altura baixa tendo em conta a idade, o que é um reflexo claro da subnutrição crónica. Estes números levam o país a ser colocado na categoria de “Prevalência muito elevada”.

Já quando são analisados os dados referentes à debilitação infantil, ou seja, crianças com menos de 5 anos e com peso abaixo do recomendado para a idade, Timor-Leste apresenta dados ligeiramente melhores. No entanto, quase 10% (9,9%) das crianças em Timor-Leste sofrem com este problema, valores superiores à média do Sudeste Asiático, sendo categorizado como um problema de “Média prevalência”, no limiar de passar para o patamar seguinte.

Os números da obesidade em Timor-Leste são naturalmente melhores do que os abordados previamente. A obesidade infantil atinge apenas 1,6%, sendo um dos valores mais baixos da região. No entanto, é importante destacar a evolução negativa da obesidade nos adultos, que em 16 anos duplicou. Em 2000 era cerca de 10%, mas em 2016 já se registavam valores na ordem dos 20%.

O relatório analisa também a alimentação das crianças entre os 6 e os 23 meses, idades em que é fundamental uma alimentação saudável e diversificada para o desenvolvimento de uma pessoa.  Em Timor-Leste, 13,3% das crianças têm uma dieta minimamente aceitável, 27,6% têm uma dieta minimamente variada e só 45,6% das crianças têm uma frequência mínima de refeições.

O relatório aponta cinco sistemas imprescindíveis para resolver este problema e que não estão bem assegurados a toda a população: o sistema de saúde; o sistema sanitário e o acesso a água potável; o sistema educativo; o sistema de acesso a alimentos; e o sistema de proteção social.

Um sexto fator que agravou ainda mais a situação é a pandemia da covid-19, que tornou a situação de famílias que já antes desta tinham dificuldade em aceder a alimentos ainda pior.

Tendo consciência da gravidade da situação, em outubro de 2020 o governo timorense juntou-se ao Movimento SUN – Scaling Up Nutrition Movement – com o intuito de corrigir este grave problemas.

Taur Matan Ruak, primeiro-ministro de Timor-Leste, referiu que “Este compromisso encoraja a nossa aposta estratégica de combate à pobreza e à subnutrição infantil e familiar, o qual justifica a nossa adesão ao Movimento Global para a Melhoria da Nutrição”, que permite a maior mobilização de recursos humanos e financeiros que permitem a aplicação de planos e políticas de nutrição ao nível nacional.

Gerda Verbug, assistente de António Guterres, secretário-geral da ONU, e coordenadora do SUN Moviment saudou a entrada de Timor-Leste no movimento que pretende erradicar a má nutrição até 2030.

Fontes: FAO, UNICEF, WFP and WHO. 2021. Asia and the Pacific Regional Overview of Food Security and Nutrition 2020: Maternal and child diets at the heart of improving nutrition. Bangkok, FAO; Lusa; Plataforma.

Imagem de capa: ONU/Martine Perret