Moria: Cinco meses após o incêndio, o pesadelo não terminou em Moria 2.0

Meses depois do trágico incêndio no campo de Moria, soam alarmes sobre as condições de vida dos refugiados e migrantes no novo campo temporário, em Mavrovouni.

A 9 de Setembro de 2020 ardeu Moria, o maior campo de refugiados europeu, na ilha grega de Lesbos. Milhares de refugiados e migrantes – cerca de 13 000 – foram realocados em Mavrovouni, num campo que tem sido alvo de críticas de organizações de defesa dos direitos humanos.

A origem do incêndio permanece incerta, havendo suspeitas de fogo posto, após serem anunciados 35 casos positivos de Covid-19 no campo. O controlo do incêndio por parte dos bombeiros foi moroso, devido a explosões no campo e a um escalar das tensões entre a polícia e os migrantes.

Após a destruição de Moria, foi criado um novo campo temporário, o “Moria 2.0” situado em Mavrovouni, uma antiga carreira de tiro militar. O Conselho Grego por Refugiados e pela Oxfam expôs, de imediato, as más condições de vida no local: quase oito mil pessoas a viver em tendas, não adaptadas para o Inverno, algumas das quais apenas a 20 metros do mar, e sem proteção contra ventos e chuvas.

Raphael Shilhav, perito em migração da Oxfam critica a União Europeia, exclamando: “Quando Moria ardeu ouvimos fortes afirmações por parte de decisores da União Europeia que diziam Não haverá mais Morias. Mas o novo campo é corretamente chamado Moria 2.0”. Shilhav afirma ainda que a resposta europeia e grega após o incêndio de Moria foi lamentável: “Em vez de realocar os requerentes de asilo em abrigos adequados onde estariam seguros, a União Europeia e a Grécia optaram por outro campo sombrio, encurralando as pessoas numa espiral de miséria”. Estes relatos surgiram apenas um mês após o incêndio que devastou Moria, e não têm existido sinais de melhoria das condições de vida dos migrantes e refugiados.

Foram denunciados, também, altos níveis de chumbo no solo do novo campo de Mavrovouni. O envenenamento por chumbo, através, por exemplo, da inalação da poeira do solo, pode originar convulsões, anemia, e levar à morte, sendo crianças e grávidas as mais vulneráveis. Grupos de defesa dos direitos humanos, como a Human Rights Watch falam em negligência e possível encobrimento pelas autoridades gregas, que construíram o campo de refugiados numa antiga carreira de tiro e ignoraram os riscos para a saúde pública.

Após a pressão dos grupos de defesa dos direitos humanos, o governo grego acabou por testar o solo em Moria 2.0 e negou o risco de envenenamento por chumbo nas áreas residenciais do terreno. Os altos níveis de chumbo no solo registar-se-iam, apenas, nas áreas administrativas do campo. Porém, até início de fevereiro de 2021, os resultados dos testes não foram tornados públicos e o governo grego não permite que peritos independentes analisem o solo.

O ministro grego das migrações e asilo, Notis Mitarachi, garantiu, em janeiro, que estariam a ser tomadas as medidas necessárias para assegurar as condições de segurança do campo, e que o espaço da antiga carreira de tiro representa apenas 21 mil metros quadrados, num campo de 341 mil metros quadrados – cerca de 6% da sua área total.

Moria ardeu há cinco meses, e ainda não avançou a construção, de raíz, de um novo campo para migrantes e refugiados. “O plano é construir cinco novos campos que permitam que as condições de vida dos migrantes sejam melhores no próximo inverno”, disse o ministro grego em entrevista ao jornal alemão Zeit Online.

Foto de capa: Ahmed Akacha/Pexels

Fonte: Human Rights Watch, Oxfam, Jornal de Notícias, InfoMigrants, Ministério Grego das Migrações e do Asilo, Zeit Online