Black History Month. O mês em que os EUA celebram a história afro-americana

Desde as conquistas até aos desafios, o mês de fevereiro é dedicado à celebração da história afro-americana nos Estados Unidos da América.

O “Black History Month” é uma comemoração anual, celebrada durante o mês de Fevereiro nos Estados Unidos da América. A iniciativa surge em 1926, e foi uma criação do historiador Carter G. Woodson, através da “Association for the Study of African American Life and History” (ASALH), com o objetivo de relembrar personalidades e acontecimentos que compunham a história afro-americana, e que contribuíram para a vida política e cultural dos EUA.  

A história do Black History Month

A “ASALH”, segundo o site do canal de televisão História, é “uma organização dedicada a pesquisar e a promover as conquistas de negros americanos e de outros povos afrodescendentes”. No início, esta associação idealizou apenas uma semana dedicada à história afro-americana, sendo escolhida a semana que coincidia com os aniversários de Abraham Lincoln, presidente que aboliu a escravatura em 1865, e Frederick Douglas, um escravo que fugiu de Maryland e liderou o movimento abolicionista em Nova Iorque.

A criação do “Black History Month” procurou ainda incentivar o ensino da história afro-americana nas escolas públicas dos EUA, o que acabou por contribuir para a organização de celebrações locais, a criação de clubes de história e a receção em escolas de mais palestras e apresentações acerca da histórica africana na América.

Mais tarde, em 1970, a “Semana da História Negra” transforma-se no “Mês da História Negra”, por iniciativa de educadores negros e pelo “Black United Students” da Universidade de Kent. Seis anos depois o “Black History Month” era celebrado em todos os Estados, a mando do presidente Gerald Ford. Desde 1976, todos os presidentes dos EUA, estabeleceram o mês de Fevereiro como o mês para a celebração da história negra, e todos os anos o tema é diferente.

Black History Month em 2021

Este ano, o presidente Joe Biden fez um comunicado onde proclamou o mês de fevereiro de 2021, como o mês da história negra, através do site da Casa Branca, e apelou os americanos a “ honrar a história e as conquistas dos negros americanos” e a “refletir sobre os séculos de luta” que levaram o país “a este tempo de acerto de contas, redenção e esperança”. O presidente americano, ainda clamou por mudança, afirmando que, apesar de poder levar algum tempo, “acredita firmemente que a Nação está pronta para reintegrar a justiça racial e a equidade parte do que os EUA fazem hoje, amanhã e todos os dias”. Ainda no comunicado, Joe Biden incentiva os americanos a continuarem “o bom e necessário trabalho para aperfeiçoar a União entre os americanos”.

Todos os anos, o “Black History Month” apresenta um tema específico e diferente. O tema do “Mês da História Negra” de 2021 é, segundo o site do canal televisivo História, “ Família Negra: Representação, Identidade e Diversidade”. O objetivo por detrás desta temática é conhecer a diáspora africana, a distribuição das famílias negras nos Estados Unidos e a realidade das famílias negras no seu quotidiano.

Embora originário nos EUA, o “ Black History Month” foi-se espalhando por outros países com o intuito original de recordar as conquistas e personalidades da história negra. No Canadá, também em fevereiro, o país consciencializa a população para o trabalho dos negros canadianos ao longo dos tempos. No Reino Unido, os britânicos começaram a celebrar o mês de fevereiro dedicado à história negra em 1995, embora tivessem apenas em conta a história dos negros americanos. Atualmente homenageiam as contribuições do povo africano para o Reino Unido.

Celebração controversa

A celebração do mês da história negra tem causado algumas dúvidas ao longo do tempo, principalmente pela forma como é assinalada. De um lado, os defensores desta comemoração reiteram a sua necessidade devido à existência de uma narrativa histórica maioritariamente europeia. Do outro, há quem questione se essa necessidade se mantenha atualmente, se olharmos para os progressos e mudanças efetuadas. Há ainda aqueles que, reconhecendo a importância do Black History Month, se perguntam se ele é celebrado da melhor maneira. Em conversa com o “The Atlantic”, o professor do ensino primário Zia Hassan, considera que “ter um mês para a história negra compartimentaliza o problema, como se, a partir do momento em que o mês termina, pudessemos desviar a nossa atenção para outras coisas e voltar a este assunto no próximo ano”.

Parte deste problema pode estar, então, no ensino. Grande parte do que é ensinado aos estudantes estadunidenses sobre a história africana nos EUA passa pela escravatura e mesmo isso tem falhas. O “The Atlantic” destaca alguns destes problemas referindo que “foi pedido a estudantes do ensino médio em Charlotte, Carolina do Norte, que dessem quatro razões sobre o porquê de os africanos serem bons escravos. Uma escola em Los Angeles encenou um navio com escravos com estudantes deitados no chão da sala, com os pulsos presos. E para uma lição sobre a América Colonial, alunos do quinto ano numa escola no norte da Nova Jérsia tiveram de criar cartazes a publicitar leilões de escravos”. A verdade é que a história negra não é ensinada em todos os estados dos EUA e, quando é ensinada, apresenta versões que falham em ensinar o movimento dos direitos civis, a supremacia branca e a opressão. Segundo um estudo de 2015 conduzido pelo Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana e pelo instituto de pesquisa Oberg Research, apenas 8% ou 9% das aulas de história são dedicadas à história negra.

Algumas das dicas sobre o que ensinar neste mês de celebração, o que ainda está esquecido ou passa despercebido na história afro-americana, passam pelo Black Wall Street e o massacre de Tulsa; a 13ª emenda (relacionada com uma exceção na proibição da escravatura: o trabalho forçado nas prisões); o Harlem Renaissance (um período cultural influente na história afro-americana); Marsha P. Jackson (mulher transgénera que lutou pelos direitos LGBTQ+ e contra a opressão policial), entre outros.

E em Portugal?

Também em Portugal, é comemorado o “Black History Month”, e por cá recordamos a história negra em novembro. Contudo, durante o mês de fevereiro também existem iniciativas de algumas entidades, como por exemplo, a Embaixada Americana, que, como afirma no seu site, “organiza diversas atividades de divulgação, incluindo uma campanha nas redes sociais, apresentações sobre diversidade e multiculturalismo em escolas, uma mesa redonda sobre mudanças sociais através das artes, uma visita ao Not a museum e à galeria de arte pública na Quinta do Mocho e uma receção de encerramento”. A Embaixada Americana em Portugal utiliza, o “Black History Month” como uma base para conectar as vivências das comunidades afro-americanas e afro-portuguesas, relembrando as contribuições de ambas para a sociedade e sensibilizando-as sobre a história, cultura e valores que partilham.

Este ano, o “Black History Month” ganha ainda mais expressão devido à nomeação para o Prémio Nobel da Paz do movimento “Black Lives Matter”, fundado em 2013 por Opal Tometi, Alicia Garza e Patrisse Cullors, e que, segundo o deputado norueguês, Petter Eide, pressionou outros países a enfrentarem o racismo no seio das suas sociedades.

Fontes: Canal História, The White House, The Time, The Atlantic, Insider