QAnon. O fenómeno de radicalização massiva chegou ao Congresso

A nova conspiração que permeia fóruns e redes sociais entrou nos portões do Congresso americano e apresenta uma ameaça.

Eleita em novembro de 2020, com uma campanha baseada na QAnon, Marjorie Taylor Greene, representante do 14º distrito da Georgia, tomou posse a 3 de Janeiro de 2021 como membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

         É este o novo fenómeno a permear a direita norte-americana, uma teoria da conspiração que idolatra Donald Trump. A QAnon afirma que o antigo presidente norte-americano está a combater um “deep state” (estado profundo) que envolve a oposição política, os media e grandes corporações – as elites que os crentes da QAnon alegam praticar satanismo e manter ringues de pedofilia.

         A QAnon apareceu em 2017 num fórum online denominado 4chan, conhecido terreno fértil para comunidades de extrema direita, e continua a desbravar caminho por plataformas online, como o Facebook, desde então. A comunidade reúne-se em torno das publicações de um utilizador anonimo, que assina como Q, e simula ter acesso a informação classificada sobre o governo estadunidense, que partilha na forma de Q drops ou breadcrumbs.

         Uma sondagem do Daily Kos/Civiqs indica que cerca de 56% do eleitorado Republicano acredita que a QAnon é verdadeira ou parcialmente verdadeira. Estima-se que centenas de milhares, talvez milhões, de americanos participam ativamente nestes fóruns.

         Após críticas severas dos democratas a Marjorie Taylor Greene – inclusive da líder da maioria na Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, que demonstrou preocupação em relação à aceitação de Greene no seio do partido republicano – a congressista da Georgia foi submetida a audiência no Congresso. O julgamento foi inicialmente convocado por uma moção do deputado democrata Schultz da Florida, com o objetivo de expulsar Greene dos cargos no Comité de Educação e Trabalho e no Comité Orçamental.

         A 4 de Fevereiro, a congressista foi afastada dos comités. Na Câmara dos Representantes, os democratas – e apenas 11 republicanos – votaram a favor da sanção, num total de 230 votos, e 199 republicanos votaram contra.

          Durante a audiência, a deputada defendeu que as opiniões manifestadas em publicações de apoio à QAnon – que incluíam uma atitude negacionista em relação a tiroteios em escolas, como o tiroteio na escola primária de Sandy Hook, em 2012, e, até, em relação aos ataques de 11 de setembro de 2001 – não refletem as suas ideias atuais. No entanto, foi eleita, com uma campanha baseada nos mesmos princípios, há menos de 4 meses, em novembro de 2020. Se rejeita a QAnon, ao entrar nos corredores do Congresso, será necessário ainda perceber se recorreu às teorias da conspiração enquanto artificio de campanha eleitoral.  

FONTES: BBC News, The Guardian, Daily Kos/Civiqs, Library of Congress.