De acolher refugiados climáticos a fornecer comida: o novo uso de Kiribati à propriedade adquirida nas Ilhas Fiji

Em 2014, o governo de Kiribati adquiriu cerca de 22 quilómetros quadrados de Vanua Levu, a segunda maior ilha da República das Ilhas Fiji. Sete anos passados o governo do país da Oceânia anunciou uma mudança de planos no aproveitamento da terra, numa decisão bastante contestada por muitos habitantes.

A Républica do Kiribati é um país da Oceânia composto por 33 ilhas e atóis – ilhas de corais que rodeiam uma lagoa interior – que albergam pouco mais de 100 mil habitantes. É também um dos países mais ameaçados pelas alterações climáticas, devido à subida do nível médio das águas do mar.

Assim, de forma a garantir uma porção de solo para onde os habitantes de Kiribati se pudessem deslocar na eventualidade do desaparecimento das ilhas e atóis, no ano de 2014 Anote Tong – à data presidente de Kiribati – oficializou a compra de uma propriedade no estado de Natoavatu. Tong garantiu que o investimento seria para fazer face à eventual necessidade de realojamento da população.

Fonte: Christopher Pala/The Guardian

Desde o início que a compra foi bastante controversa. James Ellsmor, especialista em sustentabilidade, alertou para a inospitalidade da terra para acolher tanta população e para a existência de uma comunidade de cerca de 500 descendentes de escravos raptados para trabalhar nas plantações das Ilhas Fiji, que habitam no local visto que não têm direitos de propriedade em nenhum local do país. Por estas razões, o jovem questionava-se se a aquisição teria sido efetuada por motivos políticos, e não pelos motivos climáticos apresentados.

Em 2010 tinha também sido publicado pelo jornal Global and Planetary Change um artigo que analisava quantitativamente as mudanças físicas em várias ilhas no Pacífico, incluindo as de Kiribati. Quatro ilhas do atol de Tarawa foram analisadas durante mais de três décadas e as conclusões foram inequívocas: em todas as ilhas foi verificável um aumento da área, com aumentos que variaram entre 2 e 30%.

O mais recente estudo da Universidade de Auckland confirma o aumento da área terrestre nas Ilhas de Kiribati. Os cientistas estudaram os atóis das Ilhas Marshall, de Kiribati e das Maldivas e concluíram que estes cresceram 8% em tamanho nas últimas seis décadas, apesar do aumento do nível médio do mar.

Paul Kench, geomorfologista costal, considera que foram os sedimentos dos recifes de coral os responsáveis por este aumento: “Todas as ilhas e atóis que observámos são compostos predominantemente por corais fragmentados, conchas e esqueletos no recife de coral, arrastados pelas ondas e depositados na ilha”. Deste modo, em todos os locais onde os corais estavam saudáveis foi produzido sedimento suficiente para o aumento do tamanho das ilhas. Por esta razão, especialistas no assunto consideram que a solução para ilhas como as de Kiribati passa pela não destruição dos corais, que, ao manterem-se saudáveis são capazes de aumentar a área terrestre das ilhas e, consequentemente, evitar a deslocação de pessoas enquanto refugidos climáticos.

Levando em conta os novos dados, em fevereiro de 2021 Taneti Maamau, presidente do Kiribati desde 2016, anunciou que a terra adquirida às Ilhas Fiji não serviria para o realojamento de eventuais refugiados, mas sim para a produção de alimentos, o que contribuiria para a resolução de um dos grandes problemas que afeta o país: a falta de segurança e estabilidade alimentar.

A falta de segurança e estabilidade alimentar

São vários os fatores que fazem de Kiribati um país muito afetado por dificuldades alimentares. O PIB mais baixo do Pacífico, a vulnerabilidade climática, a pouca área terrestre, o excesso populacional, a falta de água potável, o pouco nível de elevação (em relação à água do mar) das ilhas dificultam o acesso a comida nutriente e diversificada. Quase todos os vegetais são importados, principalmente da Austrália, da China e das Ilhas Fiji, o que também torna o país dependente de terceiros. Sendo um país onde não é possível garantir a mínima autarcia, o Kiribati vê-se assim numa posição de extrema dependência de causas naturais – como o clima – e por isso mesmo incontroláveis e do comércio externo, onde fica sujeito aos preços exigidos pelos países exportadores.

Os problemas nutricionais refletem esta instabilidades. Mais de metade das mulheres e mais de 40% dos homens residentes no Timor-Leste sofrem de obesidade e os objetivos na redução da obesidade e da diabetes não têm sido cumpridos. Ao mesmo tempo, a população com dificuldade em aceder a alimentos suficientes para satisfazer uma dieta que permita atender à necessidade de energia tem vindo a aumentar desde 2015.

Fonte: Jonas Gratzer/LightRocket via Getty Images

A presença da China no processo

O projeto é considerado indispensável para a resolução dos problemas alimentares previamente referidos. Porém, o anúncio do envolvimento da China no processo gerou indignação e dúvidas por parte de muitos habitantes de Kiribati.

Em comunicado à imprensa, o gabinete do Presidente referiu que “O plano estratégico para a terra nas Ilhas Fiji tem sido desenvolvido, e estamos à procura de assistência técnica da China, para melhorar o plano, incluindo ideias para projetos e atividades. A terra nas Ilhas Fiji é ideal para o desenvolvimento futuro, de forma a satisfazer as necessidades dos habitantes de Kiribati, devido ao solo ideal para a agricultura e à proximidade à beira-mar e ao porto. O governo considera o desenvolvimento da terra nas Ilhas Fiji uma oportunidade de investimento para o benefício das pessoas de Kiribati.”. No entanto, embora tenha desmentido os rumores segundo os quais a quinta seria oferecida ou vendida à China, o presidente foi bastante criticado por vários habitantes.

Nas redes sociais foram-se acumulando comentários negativos, reveladores da indignação de parte da população aquando do conhecimento do plano. Um utilizador acusou o governo de Kiribati de se vender à China: “O nosso governo está literalmente a vender o nosso futuro à China”. Já outro utilizador criticou a falta de transparência e de clareza do projeto: “Mas o governo não deu detalhes no plano: quem – Kiribati, China ou Fiji – irá trabalhar a terra; o que será plantado; e para quem?”.

Banuera Berina, adversário de Taneti Mammau nas eleições presidenciais de 2020 também se pronunciou sobre o assunto referindo que, embora o plano pareça ideal, o governo deveria ser “transparente nas negociações com a China tanto neste como noutros planos de desenvolvimento.”.

Já Seini Nabou, secretária-geral do National Federation Party – partido da oposição – além de reforçar a necessidade de transparência, adicionando que habitantes das Ilhas Fiji também deveriam ser empregues considerando que o emprego exclusivo de cidadãos do Kiribati viola as leis de imigração locais”.

É a segunda vez em menos de um ano que Kiribati se vê no centro do debate sobre a influência cada vez maior da China no Pacífico (após em 2019 ter mudado a sua aliança diplomática de Taipé para Pequim). Em agosto de 2020, a visita do embaixador chinês Tang Songgen à ilha de Marakei gerou polémica, fruto de uma fotografia da cerimónia tradicional de boas-vindas.

Fonte: Observador

Na fotografia, é visível o embaixador a andar em cima da costa de rapazes deixados no chão, enquanto duas mulheres vestidas com trajes tradicionais lhe seguram nas mãos. A enorme contestação foi, no entanto, rejeitada pelos habitantes de Kiribati, que se referem à prática como tradicional e à fotografia como mal interpretada, opinião partilhada por Katerina Teaiwa, professora do Colégio da Ásia e do Pacífico da Universidade Nacional da Austrália. A académica refere que apesar do poder do simbolismo este mostra honra e hospitalidade e não subjugação.

A aquisição e uso de 22 quilómetros quadrados é assim mais um acontecimento envolto em alguma polémica e indignação. Porém, pode ser também um passo importante por parte de Kiribati na luta contra os problemas alimentares.

Fontes: The Guardian, Global Citizen, ABC News, The Stream, Devpolicy, Slate, RNZ, Observador

Fonte da imagem de capa: Jonas Gratzer/LightRocket via Getty Images