Quase 300 alunas raptadas no Noroeste da Nigéria

Grupos de crime organizado aproveitam conflitos em redor dos recursos naturais do noroeste nigeriano para semear o terror nas populações da região

Os raptos e sequestros de menores têm-se tornado acontecimentos cada vez mais frequentes na República da Nigéria. O mais recente acontecimento deu-se na madrugada de 27 de fevereiro do ano corrente, quando dezenas de homens armados invadiram o dormitório feminino da Escola Secundária de Ciências do Governo, na cidade de Jangebe, e raptaram 317 jovens. Este número, relatado inicialmente pelas autoridades, foi posteriormente corrigido para 279 alunas. 

Fonte: TVI24

Menos de uma semana depois de terem sido raptadas do internato onde viviam em Jangebe, no dia 2 de março, as centenas de raparigas sequestradas foram libertadas e encontradas em “boas condições físicas”, com exceção de algumas que apresentaram feridas nos pés.

Por não ter sido pago qualquer resgate das jovens, as circunstâncias da libertação das raparigas são  pouco claras. Contudo, o porta-voz do governo regional de Zamfara, Yusuf Idris, avançou que foram os próprios “raptores arrependidos” que funcionaram como intermediários na negociação da fuga das vítimas.

De acordo com as autoridades, os agressores não identificados, após os ataques, mobilizaram as estudantes numa marcha cujo destino final seria uma floresta. Em declarações à CNN, Yusuf Idris informou ainda que as raparigas descreveram estes dias como “a pior experiência da sua vida”, onde não tinham local para dormir, andavam descalças sob pedras e espinhos, apelando inclusive aos raptores “que parassem de andar pois estavam feridas e cansadas”, sendo ameaçadas a tiro pelos mesmos e forçadas a continuar.

Fonte:Reuters

“Atravessámos um rio, fomos escondidas e deixaram-nos a dormir sob arbustos numa floresta…Fomos agredidas com armas para nos movermos. Enquanto nos espancavam com armas, algumas de nós choravam e moviam-se ao mesmo tempo.”

Testemunho de vítimas à BBC News & Reuters News Agency

Nos últimos anos, devido à crise económica que afeta a Nigéria,o número de raptos com o intuito de pedir resgates tem crescido exponencialmente, sendo cada vez mais frequente o sequestro de jovens em massa que são, na sua grande maioria, oriundos de zonas mais desenvolvidas do país, de forma a que grupos armados consigam extorquir grandes quantidades de dinheiro. Estes ataques na Nigéria visam os menores como o principal alvo de raptos, desde o sequestro infame do grupo islâmico Boko Haram em 2014 de 276 estudantes na cidade de Chibok, onde 112 ainda se encontram desaparecidas, embora relembradas e reivindicadas a partir do movimento #Bringbackourgirls.

Via twitter, first lady-archived

Desde então, a região tem sido palco de raptos constantes que se tornaram num grave problema de segurança nacional. Os governos regionais têm como política de resolução deste tipo de conflitos o pagamento dos resgates reivindicados, como forma de assegurar a segurança das vítimas, embora, segundo a CNN, os governos regionais raramente admitam o pagamento destes resgates. A ocorrência, nos últimos dois meses, de outros dois casos de sequestro de menores- 344 alunos de uma escola de Katsin em dezembro, e 42 pessoas numa Universidade no estado de Níger há duas semanas atrás, levou o presidente da Nigéria Muhammadu Buhari a apelar aos governadores regionais para parar de pagar resgates de sequestros. O objetivo será parar a “indústria dos sequestros” que atualmente afeta a Nigéria.

Estes ataques são levados a cabo por grupos de crime organizado, que além dos sequestros, roubam e pilham as povoações ao redor da floresta de Rugu, tanto com recurso ao assalto à mão armada quer através do roubo de gado e de colheitas agrícolas, ambos cruciais para a sobrevivência dos habitantes desta região. Esta floresta estende-se por quatro estados do norte e centro do país: Katsina, Zamfara, Kaduna e Níger. Muitos destes grupos de crime organizado mantêm ligações com grupos extremistas islâmicos do noroeste da Nigéria.

O surgimento dos conflitos que assolam a Nigéria na última década

Segundo um relatório do International Crisis Group, publicado em maio de 2020, a violência nesta região da Nigéria é responsável por mais de 8 mil mortes e mais de 200 mil desalojados desde 2011.

A degradação ambiental em consequência das alterações climáticas e o crescimento populacional originou uma disputa pelos recursos naturais do país, quer em relação aos solos férteis como em relação à própria água disponível. Os pastores das comunidades Fulani e os agricultores das comunidades Hausa mobilizaram grupos armados como meio de assegurar os recursos naturais das regiões. O conflito entre os grupos armados das duas comunidades, denominados pelas autoridades como “bandidos” ou “vigilantes”, criou um aumento do mercado negro de armamento ligeiro no noroeste da Nigéria. Este crescimento do mercado de armas tornou-se, assim, no contexto ideal para a consolidação  de grupos de crime organizado localizados na floresta de Rugu.

Fonte: BBC News

Com a segurança da Nigéria em situação de fragilidade, a região do noroeste do país tem assistido ao refortalecimento da influência de grupos jihadistas, autores de ataques às forças de segurança que tentam assegurar a paz na região. De acordo com o International Crisis Group, o aumento de atividades radicais islâmicas no país pode tornar o noroeste da Nigéria numa “ponte terrestre que conecte insurgências islâmicas na região do Sahel Central com a insurgência de violência que se tem verificado na região do Lago Chade, localizada no nordeste nigeriano, na última década”.

Fontes: Observador, BBC NEWS, CNN, New York Times, AL JAZEERA, AP News, TSF, International Crisis Group

Fonte Imagem de Destaque: Afolabi Sotunde/Reuters/Reuters