Massacre em Camargo provoca morte de migrantes a caminho dos Estados Unidos

As migrações da Guatemala para os Estados Unidos da América têm vindo a aumentar, mas, vítimas de crimes, os migrantes nem sempre chegam ao destino desejado.

19 corpos foram encontrados, baleados e queimados, no município de Camargo, no Estado mexicano de Tamaulipas, perto da fronteira com os Estados Unidos. O massacre causou novo debate no México sobre os perigos enfrentados pelos migrantes vindos de países empobrecidos da América Central, muitos dos quais sofrem abusos na jornada para norte.

As mortes aconteceram a 22 de janeiro, mas os corpos só foram encontrados no dia 24 pelas autoridades mexicanas, devido ao receio dos habitantes de Camargo de reportarem o incidente após terem visto um carro em chamas. Para além dos corpos, a polícia encontrou armas e mais dois veículos ardidos. 5 pessoas sobreviveram ao massacre e estão a ser interrogadas pelas autoridades.

As autoridades mexicanas identificaram 16 vítimas de origem guatemalteca e três de nacionalidade mexicana. Os corpos dos nativos chegaram à Guatemala na sexta-feira, 12 de março, com transporte pago pelo Governo mexicano. O Conselho Nacional de Atenção ao Migrante da Guatemala vai-se encarregar de os fazer chegar às famílias e comunidades, que exigem que seja feita justiça. O Governo da Guatemala declarou três dias de luto nacional.

Famílias na Guatemala em luto pelos migrantes falecidos

Na vila indígena de Comitancillo, na Guatemala, famílias dos 16 migrantes guatemaltecos encontrados mortos dos corpos encontrados em Camargo pertencem a migrantes da vila. As famílias afirmam ter recebido um telefonema do contrabandista a cargo do transporte dos migrantes para os Estados Unidos a informar da morte das vítimas. Relatam ainda que iam tendo contacto com os seus familiares, mas que deixaram de o ter no dia 21 de janeiro, um dia antes das mortes ocorrerem. Algumas famílias já ergueram altares para homenagear as suas vítimas.

Irma Yolanda Jimenez Pérez revela à Associated Press que o seu sobrinho de 17 anos, Rivaldo Danilo Jimenez, de acordo com o contrabandista, está entre os mortos. Rivaldo Danilo ganhava 6,50$ por dia a trabalhar em campos de milho e queria continuar a estudar. As razões que o levaram, como aos outros migrantes, a fazer este perigoso caminho até aos Estados Unidos, foi a busca de uma vida melhor.

Saidy Aguilon, mulher do migrante falecido Gudiel Pablo, de 22 anos, disse que ele saiu com o grupo para ir trabalhar nos EUA, com o intuito de ganhar dinheiro para pagar tratamentos para a mãe diabética. Guidel tocava teclado num grupo de música católico e tinha outro sonho: comprar instrumentos melhores para o grupo. Irma Yolanda Jimenez Pérez questiona-se se “haverá justiça para estes seres humanos? Porque é que fizeram isto? Queremos uma explicação, porque é que isto aconteceu à nossa família?”.

German e Maria Tomas, avós de Ivan Gudiel; AP Photo/Oliver de Ros

Polícias mexicanos acusados do assassinato foram detidos

12 membros da polícia estatal em Camargo foram detidos e estão a ser interrogados pelas autoridades mexicanas pelo alegado assassinato dos migrantes em Camargo. O Procurador-Geral do estado de Tamaulipas, Irving Barrios Mojica, anunciou que os policias estavam em custódia e enfrentavam acusações de homicídio, abuso de autoridade e de prestação de falsas declarações. No entanto, Mojica não põe de parte que a razão para as mortes tenha sido uma disputa entre cartéis, em luta por território e pelo direito de cobrança de passagem a contrabandistas de migrantes em trânsito.

Os polícias acusados faziam parte dos 150 membros do Grupo de Operações Especiais do estado de Tamaulipas. Em 2019, procuradores acusaram a mesma unidade policial de retirarem oito pessoas das suas casas na cidade fronteiriça de Nuevo Laredo, colocarem-nas em roupas e veículos que as faziam passar por criminosas e matarem-nas.

Como não foram encontradas balas no local do crime, deduziu-se inicialmente que os migrantes teriam sido mortos noutro local e depois levados para a zona da fronteira. Contudo, as autoridades concluíram que os polícias acusados dos homicídios apanharam os invólucros das balas no local, com conhecimento que seriam identificados e descobertos.

Evaristo Agustin é um entre os 30 homens e mulheres indígenas que viajaram até ao Ministério das Relações Exteriores da cidade de Guatemala após saberem que os seus familiares podem estar entre os mortos. Agustin estava à procura do cunhado de 22 anos e revela à Associated Press que soube da situação “por pessoas que já estavam nos Estados Unidos, familiares e vizinhos, que disseram que os nossos familiares faziam parte desse grupo [de pessoas mortas]”. Os familiares providenciaram aos polícias amostras de ADN para ajudar na identificação.

Cartéis controlam corredores de drogas e migração na zona

A cidade de Camargo é um local de passagem popular para drogas e migrantes chegarem à fronteira com os Estados Unidos. As fronteiras em Tamaulipas são controladas por grupos de crime organizados, principalmente o Cartel do Golfo e o Cartel Los Zetas, que lucram com o controlo do tráfico na zona. A polícia local, corrupta e comprada pelos cartéis, foi substituída por uma polícia estatal, que também se revelou permeável à corrupção.

O Cartel do Golfo é um dos cartéis mais antigos do México. Grupo de crime organizado e tráfico de droga criado nos anos 30, tem hoje a sua base em Matamoros, Tamaulipas, junto à fronteira de Brownsville, no Texas. Os Los Zetas formam-se mais tarde, em 1999, por desertores da tropa de elite do exército americano. Começam como braço direito do Cartel do Golfo, contra as incursões do Cartel de Sinaloa. Contudo uma rutura interna em 2010 leva à separação da organização e provoca intensas rivalidades entre os dois cartéis.

A fronteira de Camargo pertence ao território historicamente controlado pelo Cartel do Golfo mas, em anos recentes, um remanescente do cartel Los Zetas, conhecido como cartel do Nordeste, tentou assumir o controlo. Os cartéis no México normalmente cobram contrabandistas de migrantes por atravessarem o seu território, e raptam ou matam migrantes, cujos contrabandistas que os transportam tenham prestado pagamento a um gangue rival.

Memória do massacre de San Fernando reacesa em Camargo

Este massacre veio reavivar memórias do massacre de agosto 2010, em San Fernando, também no México. Dois tratores que transportavam 72 migrantes da América Central foram parados por membros do cartel Los Zetas e levados para um rancho em San Fernando. Quando os migrantes se recusaram a trabalhar para o cartel, foram vedados, baleados e mortos. Os 58 homens e 14 mulheres foram encontrados pelos militares mexicanos. O Presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, afirmou em 2019 que não quer “que os ataques horrendos e lamentáveis de San Fernando se repitam”.

O governador de Tamaulipas, Francisco Javier Garcia Cabeza de Vaca, assegura agora que o seu Estado não irá ceder ao crime organizado e promete que as mortes iram ser punidas. “Estes eventos revoltam-nos, porque são expressões de violência que não correspondem à Tamaulipas pacífica que desejamos e estamos a construir juntos”, disse o Governador numa conferência de imprensa onde ofereceu condolências e expressou a sua solidariedade para com as famílias das vítimas.

As migrações têm vindo a aumentar na Guatemala em meses recentes, com famílias a fugir da devastação de dois furacões severos e dos danos económicos causados pela pandemia. Para além disso, a administração Biden acabou com um acordo controverso com a Guatemala que enviava pessoas que procuravam asilo na fronteira entre os Estados Unidos e o México para esperarem neste país para serem ouvidos em audiências no tribunal nos EUA.

Ursula Roldan, diretora de investigação na Universidade Rafael Landívar na Guatemala, afirma que os acordos já eram vistos como ilegítimos e muitas vezes eram acordados com governos corruptos, assumindo que ficaria implícito que, com estas trocas, o governo americano iria ignorar alegações de corrupção. Contudo, a administração Biden já deportou 15 pessoas para a Jamaica e 269 para a Guatemala e as Honduras desde que o Presidente americano entrou em funções.

Fontes: Associated Press, Reuters, The Washington Post.