A Bolívia que persiste depois de Áñez

La Paz caminha a passos largos para a sua democratização após sair da sombra do golpe de estado que reprimiu o seu povo durante um ano.

Jeanine Áñez foi apreendida no dia 13 de Março por ordem do ministério público boliviano, com a promessa de ser julgada pelos seus crimes de incitação ao ódio e terrorismo.

Quando o golpe de estado brotou a Novembro de 2019, Evo Morales tinha acabado de ser eleito para formar governo pelo seu partido MAS (Movimento Ao Socialismo). O ex-presidente foi forçado ao exílio pelas forças militares e Jeanine Ánez declarou vitória sem sequer ser parte constituinte do segundo partido mais votado. O governo golpista concebeu-se rapidamente em torno desta personalidade conservadora que de bíblia em punho e ódio racial na língua embarcou numa campanha persecutória. É impossível determinar ainda quantos mortos, feridos e presos políticos os protestos dos meses que se seguiram causaram. A população indígena foi demonizada na retórica do novo governo, tendo a então presidente interina recorrido às forças armadas e polícia para lançar uma autêntica campanha de terror contra os seus opositores e contra 62,2% dos bolivianos que são indígenas.

A tomada de posse de Áñez nunca foi constitucional, apesar de apoiada pelos Estados Unidos e outros poderes externos que recusam ainda a denominação de golpe de estado, alegando uma já refutada fraude eleitoral da parte do MAS. Nunca eleita, a chefe de estado encontra-se neste momento detida em prisão preventiva e aguarda repercussões. Resta agora avaliar os desenvolvimentos do seu julgamento e perceber se ela e os seus coconspiradores irão receber penas apropriadas.

Entretanto o representante do MAS Luis Arce foi eleito à presidência no passado Novembro apesar dos recorrentes adiamentos das eleições promulgados por Áñez. Comprometido a seguir a visão de Morales para uma Bolívia democrática, Arce é encarregado da difícil tarefa de unir um país flagelado pelo golpe da extrema direita, encontrando opositores ferozes e ao mesmo tempo uma grande massa jubilante que ambiciona uma época de justiça retributiva contra os abusos dos golpistas.

Durante muitos anos a mentalidade colonial prevaleceu na Bolívia que, maioritariamente nativa, apenas em 2006, com a eleição de Evo Morales, teve o seu primeiro chefe de estado indígena. Estes povos perseguidos e usados como arremesso político pela extrema direita estão progressivamente a ser celebrados, inclusive com mais lugares no governo socialista atual.

Ao mesmo tempo, outros partidos fazem-se notar. Em La Paz, Santos Quispe do Jallalla La Paz foi eleito a governador com 55,9% da votação contra o MAS. Santos Quispe é um sindicalista filho de Filipe Quispe, o famoso dirigente do movimento comunitário Ponchos Rojos.

Os esforços de reorientar o governo para políticas sociocomunitárias tem sido geralmente bem recebido pelo público. Outros avanços como a aprovação do primeiro casamento gay têm contribuído para uma visão de abertura do país que potencialmente levará à legalização num futuro próximo.

O afastamento do fantasma do golpe e de Áñez depende também da perceção estrangeira da política boliviana. A administração de Biden não se diferencia drasticamente da de Trump no que toca à política externa com a Bolívia. O secretário de estado Antony Blinken questionou a autoridade boliviana no caso da prisão de Jeanine Áñez e seus coconspiradores em comunicado na semana passada.

Fontes: The Guardian, U.S. Department of State.