25 de Abril. A disputa da memória coletiva

O 25 de Abril traz para o debate público a questão da memória coletiva e a forma como nos definimos enquanto coletividade e nação. Pierra Nora, uma referência no quadro dos historiadores franceses, considerava a como "a memória, ou o conjunto de memórias, mais ou menos conscientes de uma experiência vivida ou mitificada por uma comunidade, cuja identidade é parte integrante do sentimento do passado" .

Vários eventos recentes têm trazido para a ribalta as problemáticas da memória colonial. O aceso debate social que se gerou em torno da figura de Marcelino da Mata, o militar nascido na Guiné-Bissau, o mais condecorado do exército. Foi um dos fundadores dos comandos, tropa de elite na qual serviu desde o início da Guerra Colonial, em 1961, e na qual foi progredindo de soldado até oficial, tendo sido promovido em 2018 a major, estando graduado em tenente-coronel.

O seu falecimento devido à pandemia do covid-19 foi seguido pela proposta do CDS, que apresentou um voto de pesar pela morte do militar, lamentando que o “herói de guerra”  não tivesse sobrevivido aos “ impactos desta terrível pandemia que o mundo atravessa”. A defesa destes crimes de guerra históricos precederam a perseguição de ativistas que o evidenciavam e insistência no discurso de branqueamento da invasão colonial.

As perceções subjetivas do real vão de encontro à política de silenciamento e dos “lugares de esquecimento” de figuras e discursos oficiais, levando-nos a concluir a importância do campo ficcional para a realização de um processo doloroso de luto, imprescindível para endereçar não só os treze anos de guerra, mas os quarenta anos de repressão instauradas pelo Estado Novo.

O momento histórico do 25 de Abril veio revolucionar diversos aspetos da sociedade, mas manteve o silenciamento deste marco, deixando por analisar, contextualizar e criticar séculos de horrores coloniais. Conseguimos manter a imagem de “bons colonizadores”, agentes da propagação da multiculturalidade e diplomatas de brandos costumes, uma visão que não podia estar mais afastada da realidade concreta da história.

Algumas obras literárias surgiram como antagónicas a esta memória, entre as quais, “Os cus de Judas” (1979), marcada pelo cunho autobiográfico (também presente em “Memória de Elefante” (1979) e “Conhecimento do Inferno” (1981). Verificava-se já aqui um diálogo sobre os eventos em questão.

Quando falamos sobre a necessidade de disputar a história, refletimos sobre a importância de um palco de debate que conteste as narrativas perpetuadas durante o período da ditadura. Parece clara a importância e a necessidade do conflito para fazer emergir uma cena pública,na qual nos tornamos visíveis.

A disputa que tem ganho mais espaço nas últimas décadas tem sido denominada “memória autêntica” ou “pós memória” e alberga as experiências de pessoas que carregam as cicatrizes deste período e a memória da geração subsequente, memória herdada, ouvida e não vivida.

Urge descolonizar a memória, pois esta sustenta o racismo estrutural que se embrenha nas nossas sociedades. Estes legados de repressão política, do autoritarismo, da impunidade e da naturalização da violência que resultaram das práticas de normalização da sociedade e da política, que também foram responsáveis por políticas de esquecimento. Apagamos a resistência da história que contamos sobre nós próprios enquanto país.

Combater por Abril é lutar por uma país de todas e todos, que torne inclusiva a portugalidade e que reconheça as dívidas históricas, olhando-as como base para resolver os desafios contemporâneos, que exigem uma defesa inequívoca da liberdade.