Protestos contra a austeridade no Líbano escalam em violência

Oito meses após a explosão que destruiu Beirute, a situação económica e política do país agrava-se. Os protestos regressam às ruas do Líbano contra a austeridade e a inflação.

Março viu as ruas de Beirute encheram-se novamente de protestos contra as medidas de austeridade impostas pelo Governo. Convocados pelo partido comunista libanês, a população voltou a manifestar-se em várias cidades do país. A situação de insatisfação tem se vindo a agravar desde a grande explosão na capital, em Agosto do ano passado, que causou mais de 200 mortes e a devastação de infraestruturas essenciais na capital. Até agora, o saldo dos protestos é penoso – já causaram cerca de 11 mortes e mais de mil feridos.

Estradas bloqueadas, pneus em chamas, repressão policial: é este o cenário dos protestos que regressam à cidade e se têm vindo a repetir nos últimos meses. Segundo a Human Rights Watch, os protestantes têm sido alvo de emprisionamentos e torturas pelas forças de segurança libanesas. O julgamento dos manifestantes decorre em tribunais militares, que não são apropriados nem têm jurisdição para julgar civis. Entretanto, o Governo tem-se mostrado inadequado para resolver a crise que o país enfrenta: o Primeiro Ministro eleito, Saad Hariri, ainda não conseguiu formar governo, seis meses após o fim do prazo para a tarefa. O Primeiro Ministro anterior, Hassan Diab, que renunciou o cargo logo após a explosão em Beirute, mantem-se no cargo, enquanto Saad Hariri procura nomear os seus ministros. Ao mesmo tempo, constantes acusações de corrupção caem sobre membros do setor judicial, comprometendo ainda mais a credibilidade da classe política perante a população.

Após a explosão na capital, a recuperação do país foi impossibilitada. O valor da Libra Libanesa, a moeda nacional, continua a cair vertiginosamente em relação ao valor do dólar. Como consequência, a inflação aumenta, juntamente com a dívida internacional do estado. Perante este cenário, o governo proibiu o câmbio de moeda (já que a venda estratégica da moeda aumentaria a inflação) e aplicou medidas de austeridade. Em resposta aos protestos, o governo tem recorrido a formas de censura, tortura e perseguição dos protestantes, que são acusados de terrorismo, mantidos em prisões com condições desumanas, alguns desaparecendo pelas mãos das forças de segurança do estado.

Neste contexto, aumentam as práticas ilícitas de garantir a sobrevivência. A população comummente recorre ao mercado negro, para compras e vendas, inclusive de moeda, com taxas de câmbio ainda mais apelativas que no mercado de câmbio. Recorrer ao mercado negro é cada vez mais fácil para qualquer civil, sendo hoje um sector relativamente vasto da economia, com o qual o estado tem sido cada vez mais complacente. Enquanto isso, pequenos negócios e iniciativas económicas familiares vêm-se forçadas a fechar por falta de apoio económico e diminuição de procura dos mercados. O custo de vida sobe a pique e os cidadãos perdem na capacidade de aceder a bens essenciais.

A impotência do governo perante estas práticas, juntamente com os protestos que vão mostrando a insatisfação popular com a inação da classe política, antecipa tempos difíceis para os libaneses. Na celebração do Ramadão, ainda em curso, a capacidade de muitos crentes de romper com o seu jejum depende de alimentos subsidiados pelo governo. O preço dos bens alimentares aumenta, tornando imprevisível um horizonte de recuperação para a população.

Fontes: Aljazeera, Arab News, France 24, Gulf News, Human Rights Watch