Ocupação do bairro de Sheikh Jarrah reacende violência contra população palestiniana em Israel

No que resta da Palestina ocupada, o cerco aperta. O bairro de Sheikh Jarrah, de conhecida importância histórica para a população palestiniana, foi ocupado pelas autoridades israelitas e o despejo das famílias gerou uma onda de protestos. O projeto de substituição dos habitantes do bairro é o último tijolo da empreitada, numa tradição de expansão e repressão iniciada com a criação do Estado de Israel.

No passado dia 2 de maio, autoridades israelitas deram ordens às famílias palestinianas residentes no bairro Sheikh Jarrah para que chegassem a um acordo para, gradualmente, evacuarem as suas casas. A posse das propriedades passa para cidadãos israelitas, que ocuparão a zona em questão, deixando seis famílias palestinianas desalojadas, numa decisão arbitrária de estender o escopo da ocupação israelita em Jerusalém. A ordem de despejo resultou numa cascata de violência, com os protestos dos palestinianos a serem brutalmente reprimidos.

Devido à resistência dos habitantes locais, as forças de segurança israelitas têm aplicado métodos de repressão que já causaram centenas de feridos. A intensidade dos protestos levou o braço armado do Hamas, Saraya Al-Quds, a responder, disparando foguetes vindos de Gaza. A retaliação de Israel levou à morte de pelo menos 28 cidadãos palestinianos.

A zona do complexo da mesquita Al-Aqsa tem sido palco de demonstrações por parte de cidadãos israelitas. Na madrugada de segunda-feira (10), a própria polícia israelita invadiu a mesquita com gás lacrimogéneo e balas de borracha. Durante as celebrações do Ramadão, as autoridades israelitas já haviam barricado o Portão de Damasco, um dos conhecidos portões na cidade antiga de Jerusalém e local sagrado para o islão. Espera-se que a situação se agrave ainda mais, com a presença de marchas nacionalistas israelitas na cidade antiga.

O bairro de Sheikh Jarrah é de conhecida importância histórica para a população palestiniana. Os próprios residentes do bairro eram já maioritariamente refugiados de outras regiões da Palestina, ocupadas por Israel em situações semelhantes. A União Europeia entende que o plano de ocupação deve ser repensado, enquanto a Casa Branca pede um alívio nas tensões ligadas aos conflitos nas ruas.

Quem manda na Terra Prometida?

A evacuação forçada de famílias palestinianas não é novidade na região. No início da ocupação israelita, ainda sob mandato britânico, os cidadãos israelitas que chegavam usufruíam de privilégios que permitiam a coerção e expulsão dos nativos, através, por exemplo, da liberdade exclusiva de posse de armas. Os cidadãos árabes eram condenados à morte pelo mesmo ato.

Ania Francos, na sua obra “Palestina. Liberdade ou Morte” descreve a “promiscuidade entre Inglaterra e a ocupação sionista” como uma denúncia do caráter de projeto político que Israel sempre representou: um estado tampão, com uma total abertura a negociações com potências europeias e norte-americanas e um projeto focado na cisão com os orientais.

Muito rapidamente, os Direitos dos palestinianos foram decrescendo. Todas as tentativas de mobilização e organização dos trabalhadores eram frustradas, os seus direitos de associação, negados e eram permitidas formas menos lícitas aos ocupantes israelitas de imporem o seu jugo.

A força de trabalho palestiniana torna-se profundamente precária, discriminada em função dos novos habitantes. Ao mesmo tempo, o clima de discriminação e violência para com a população judaica que ainda imperava na Europa favorecia grandes ondas de imigração. Sob uma fachada religiosa, o projeto israelita representaria o derradeira alívio da comunidade judaica, a de ter a casa que sempre lhes foi prometida. E os moldes de construção deste novo Estado impregnam-se na terra: se os que migrassem para Israel, conseguissem superar a barbárie que presenciavam, tinham por garantido benefícios económicos de um estado social bastante generoso para quem havia sobrevivido durante centenas de anos.

O cerco aperta

Fora expulsar os cidadãos palestinos das suas propriedades pessoais, há inúmeras formas de que Israel dispõe para se fazer sentir no quotidiano dos seus cidadãos de segunda classe. Pontos de controlo, incluindo pontos móveis, inibem o livre trânsito das pessoas palestinianas pelo território ocupado e a brutalidade policial é rotina numa das polícias mais prendadas do mundo. As forças de segurança israelitas usufruem de largo financiamento, mobilizado em grande parte através da cumplicidade com os Estados Unidos da América – em 2019, os EUA terão fornecido 3.8 biliões de dólares em apoio militar a Israel.

Hoje, nem todas as famílias palestinianas têm garantido o seu acesso a água potável, canalização, eletricidade ou cuidados de saúde. O cerco em que se mantém a faixa de Gaza impede a população da zona de ter acesso à satisfação das suas necessidades básicas. A ocupação israelita progride na vacinação da sua população, enquanto os palestinianos se vêm impedidos de receber as doses de vacinas para a COVID-19, por conta de bloqueios.

Um outro fator aperta o garrote sobre a Palestina: a falta de possibilidade de regresso dos refugiados palestinianos, após a sua saída. Apesar da Resolução 194 das Nações Unidas, que previa esta possibilidade, Israel não permite o regresso da população palestiniana a “zonas redignificadas”. Assim, o grupo de refugiados palestinianos é hoje o maior em todo o mundo. Através de campanhas como a de Sheikh Jarrah, prevê-se que esta comunidade aumente.

Como apagar a história: Nakba, ontem e hoje

A origem histórica do êxodo de cidadãos palestinianos remonta a uma data peculiar, cujo aniversário se aproxima. Nakba, palavra árabe para catástrofe, que faz alusão ao êxodo de palestinianos em 1948, devido à guerra israelo-árabe, marcada pela formalização do estado de Israel. Centenas de milhares de pessoas foram forçadas a sair das suas casas, para campos de refugiados em países vizinhos. A homenagem a este período histórico é feita dia 15 de maio.

A ocupação destas propriedades deixadas para trás serve um propósito arquitetado de apagamento histórico. Lentamente, lares centenários convertem-se em novas casas, em prisões, em infraestruturas que tentam encobrir a importância que aquele lugar uma vez teve. Uma tentativa tácita de branquear o percurso de uma das regiões mais disputadas do mundo só se pode concretizar pelo genocídio. Contudo, esta terra, mesmo que prometida, nunca foi confinada a um povo só.

Neste exato momento, ser palestiniano é uma noção cada vez mais esbatida, entre a deturpação biográfica dos mártires palestinos, o assédio constante dos cidadãos que ainda têm meios de não sair das suas casas e a lavagem política do projeto israelita, levada a cabo pelos países europeus e norte-americanos. O abuso de autoridade é uma realidade diária na região da Cisjordânia. A violência em Sheikh Jarrah não destoa na história contemporânea da zona. Na Palestina, todos os dias se chora uma morte ou uma prisão arbitrária.

A forma ilegítima de ocupação desaloja populações a despeito de toda e qualquer chamada à atenção de organizações que lutam pela imposição da dignidade e Direitos Humanos. Mesmo que o Tribunal Penal Internacional afirme ter jurisdição para investigar crimes de guerra na região, a resistência israelita em cooperar ou reconhecer a validade desta investigação não promete descanso a um povo sufocado durante décadas. Até que estes ganhem fôlego para se fazerem ouvir, a nacionalidade palestiniana vai ser um alento que apenas se faz cumprir um dia de cada vez.

Fontes: DW, Haaretz, MEMO – Monitor do Oriente Médio, Público, SWI