A história é agora: sobre a Ocupação da Palestina

« Precisamos de encarar a história como mais do que a solidificação da narrativa daqueles que a venceram, que tiveram o poder de, através da força e da ideologia, tornar a sua versão dos factos em algo entendido e defendido como verdadeiro e moralmente justificável»

Esta crónica é ao mesmo tempo muito concreta e muito abstrata. É sobre a situação atual na Palestina e sobre o modo como vemos a história dos movimentos sociais no geral. O que vou dizer não é propriamente novo, e vem sendo defendido por inúmeros ativistas pela libertação de povos oprimidos em vários países e causas, na tentativa de unificarem as suas demandas, de as justificar moralmente num projeto maior de dignidade e direitos humanos, e de radicalmente defenderem o fim de toda a opressão. Vai também em linha com o que muitos têm dito sobre o recente escalar das tensões na Palestina, sobre as quais podem ler mais neste texto da Mariana Cardoso.

Vários têm realçado a importância de não descrevermos como conflito aquilo que é uma situação de Apartheid perpetuada pelo Estado de Israel – com o próprio Nelson Mandela a ter dito ‘We know too well that our freedom is incomplete without the freedom of the palestinians’. Têm notado o modo como a gradual ocupação de território palestiniano por colonos israelitas constitui uma forma de limpeza étnica, ao levar à expulsão massiva de palestinianos da área em que residiam. Sobretudo, nota-se como entre David e Golias não existe um conflito ou uma guerra, mas sim a ocupação duradoura da Palestina por Israel, através de um dos mais poderosos exércitos do mundo, o IDF, e da conivência da comunidade internacional. A legalidade não é tampouco a questão aqui, já que inúmeros atos israelitas foram a este ponto considerados ilegais à luz do direito internacional, incluindo a construção do Muro na Faixa de Gaza, segundo a ONU.  

Numa carta que escreveu da prisão de Birmingham, Martin Luther King dizia que ‘A justiça é indivisível. A injustiça em qualquer lugar do mundo é uma ameaça à justiça em todo o mundo’. É por esta necessidade de abarcar todos nas nossas causas que é importante pronunciar-nos e agir agora sobre a ocupação violenta da Palestina. Angela Davis fala num discurso incluído na coletânea ‘A Liberdade é uma luta constante’ (de onde pedi emprestada esta citação a MLK também), do modo como a história dos movimentos sociais se torna assimilável e reproduzível apenas quando está encerrada, quando ultrapassada a turbulência em que visões opostas resistem a que estas causas singrem. Estamos num momento de turbulência, e seria importante que o aproveitássemos para reconhecer, agora, que o que testemunhamos na Palestina é a opressão duradoura e violenta de um povo.

Angela Davis mostra como o encerramento da história leva a que os movimentos sociais sejam despidos da sua ação revolucionária, sendo por exemplo MLK lembrado como um protestante pacífico, e por isso legítimo, e a importância da organização de vários outros movimentos pela justiça racial apagados da história pela interpretação da sua ação como violenta. Ela nota ainda como Nelson Mandela, por exemplo, foi mantido na lista de terroristas dos EUA até 2008, apesar de ser louvado como um líder pacifista internacionalmente. Estes casos ilustram o modo como aqueles que lutam contra a opressão irão inevitavelmente ser descritos como violentos pelos que pretendem impedir o singrar da sua causa, na tentativa de deslegitimar a sua ação. Do mesmo modo se descreve a situação palestiniana, equiparando erradamente o nível de agressividade usado por ambas as partes e neutralizando as diferenças nas consequências e na origem dessa violência.

Este encerramento da história para a tornar mais digerível que ocorre quando um movimento social consegue fazer valer algumas das suas demandas é o que faz com que seja extremamente consensual descrever o Apartheid sul-africano como horrível, mas longe de consensual notar as suas semelhanças com a gestão das vidas palestinianas pelo estado de Israel; ou de como a segregação racial na era das leis Jim Crow nos EUA é vista como impensável, mas a segregação racial de facto de várias cidades estanudineses atualmente não é consensualmente vista como problemática. Essencialmente, a vitória de movimentos sociais emancipatórios é conseguida apenas com a diluição da mensagem central do movimento, apagando assim a ligação entre a opressão que combatem e outras opressões. Não matamos a base da opressão, mas apenas algumas das suas manifestações de modo a que a turbulência passe e as demandas por soluções transformativas sejam esquecidas.

Não esperemos pelo encerrar da história. Aquilo que nos horroriza, aquilo que classificamos como uma violação de direitos humanos, aquilo que consideramos inaceitável não está só no passado. Precisamos de encarar a história como mais do que a solidificação da narrativa daqueles que a venceram, que tiveram o poder de, através da força e da ideologia, tornar a sua versão dos factos em algo entendido e defendido como verdadeiro e moralmente justificável. É preciso encarar a história mais difícil de digerir – encarar que os horrores de outrora ainda se repetem, e que certos horrores nunca foram verdadeiramente eliminados. Farei um último empréstimo à Angela Davis, para lembrar a importância de construir um movimento não centrado em figuras ou personalidades – algo que a história também tende a encerrar ao endeusar certos líderes para que a força do coletivo seja eclipsada. A força dos movimentos sociais está na massa de gente que se decide organizar contra a opressão, e é também por isso que tomar posição sobre o que acontece hoje na Palestina é necessário para cada um de nós.