Relação entre Paquistão e França viveu momentos conturbados no último mês

O mês de Abril viu tensões na diplomacia entre França e o Paquistão, mas também o uso de medidas repressivas por parte do governo paquistanês para controlo de informação.

Desde outubro de 2020 que a presença da embaixada francesa em solo paquistanês tem sido contestada por grande parte da população do país asiático. Na altura, as declarações do Presidente Emmanuel Macron, que defendeu a liberdade de expressão na sequência do assassinato de um professor que mostrou caricaturas do profeta Maomé em aula, desencadearam uma onda de protestos no Paquistão, entretanto reavivados.

As declarações de Macron em outubro foram o gatilho para vários protestos organizados pelo Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP), partido que organiza violentos protestos e que exigiu a saída do embaixador francês por blasfémia ao Islão.

Em meados de abril, o partido – liderado desde novembro por Rizvi, (após a morte súbita do pai) – regressou à rua, reivindicando a expulsão do embaixador frances e apelando ao boicote de produtos franceses. De acordo com o TLP, o governo paquistanês aceitou em novembro os pedidos para o corte das relações bilaterais com a França e para a expulsão do diplomata francês, medidas não tomadas pelo governo paquistanês. Porém, o executivo de Islamabad garante que o acordado foi apenas discutir o assunto no parlamento.

Rizvi foi preso dia 12 de abril após dar um ultimato ao Governo para cortar as relações com França e expulsar o embaixador francês no Paquistão. Após a prisão, os apoiantes de Rizvi desencadearam uma enorme onda de protestos, bloqueando as duas maiores cidades do país – Lahore e Karachi – além da capital, Islamabad. A embaixada francesa viu a segurança ser reforçada por contentores vigiados por “Rangers”, a força especial do exército paquistanês.

Os protestos foram violentos e, de acordo com o ministro do Interior paquistanês, pelo menos cinco pessoas foram vítimas da ira dos manifestantes, entre as quais dois agentes de segurança. Do outro lado, o TLP garante que vários membros do movimento foram também mortos.

Considerando o TLP um partido extremista, e fazendo referência às cinco pessoas mortas durante os protestos, Sheik Rashid Ahmad, o ministro do Interior,  propôs a ilegalização do partido no dia 14 de abril, altura em que anunciou também que os protestos islamitas tinham sido dispersos pela polícia com recurso a bastões e gás lacrimogéneo. No dia seguinte, o governo paquistanês ilegalizou o TLP. TNo dia 15 de abril a embaixada francesa enviou um comunicado a todos os cidadãos franceses residentes em Islamabad, recomendando a saída do país: “Devido às sérias ameaças aos interesses franceses no Paquistão, recomenda-se aos cidadãos franceses e empresas francesas deixarem temporariamente o país”.

Na sequência do anúncio da ilegalização do partido e com receio de manifestações ainda mais violentas, no dia 16 de abril o governo paquistanês tomou uma medida que gerou discórdia e alertas constitucionais: o bloqueio das redes sociais. É através destas que o TLP costuma mobilizar militantes e apoiantes e, de modo a evitar protestos. Assim, com receio de apelos à população logo após as orações de sexta-feira (dia de culto muçulmano), o governo de Islamabad cortou o acesso a estas durante quatro horas (das 11:00 às 15:00 no horário local, ou seja, das 7:00 às 11:00 no horário de Portugal Continental).

Num comunicado denominado “Bloqueio completo das Redes Sociais”, o governo do Paquistão ordenou a Autoridade Paquistanesa de Telecomunicações o bloqueio de redes sociais como o Twitter, o Facebook, o YouTube, o WhatsApp e o Telegram. O ministério não forneceu, no entanto, esclarecimentos adicionais, numa medida contestada por especialistas e ativistas.

O antigo presidente da Comissão dos Direitos Humanos do Paquistão e jornalista, Mehdi Hassan, manifestou-se contra tal medida, afirmando que “ao invés de banir as redes sociais, o governo deveria prender os principais líderes do TLP e julgá-los nos termos da lei.”. Já Amir Hussain, analista especialista nos assuntos relacionados ao Paquistão, também criticou a medida adotada pelo governo, por não dar atenção a quem usa as redes sociais para trabalhar: “Imagine-se como a medida afeta os condutores da Uber. Pensem nas mulheres que trabalham a partir de casa e controlam o marketing das empresas a partir das redes sociais”, adicionando os paquistaneses que vivem fora do país e que usam as redes sociais como meio de comunicação como danos colaterais da medida. Ativistas acrescentam ainda que o Paquistão tem tentado assumir um controlo cada vez maior das redes sociais, adotando medidas extremas e não oferecendo qualquer justificação à população.

Porém, alguns especialistas exaltaram a medida adotada pelo governo. Afzal Ali Shigri, especialista em segurança e antigo Inspetor-Geral da Polícia classificou a decisão como “inteligente”, acrescentado, no entanto que “espera que a decisão seja adotada para um curto espaço de tempo”.

Dia 18 de abril a tensão subiu de nível e, segundo Firdous Ashiq Awan – assistente do Ministro da Informação e da Cultura – “grupos violentos com ‘cocktails molotov’ invadiram a esquadra de polícia de Nawankot” e, de acordo com as informações do governo, pelo menos sete polícias foram feitos reféns por manifestantes antifranceses, alegadamente ligados ao TLP.

Porém, dia 20 de abril uma decisão anunciada pelo ministro do Interior, Sheikh Rashid, num vídeo publicado no Twitter, marcou o fim das violentas manifestações e da enorme contestação. No vídeo é anunciado que “Apresentaremos hoje uma resolução na Assembleia Nacional sobre a expulsão do embaixador francês”, após o governo ter chegado a um acordo com o, agora prescrito TLP, partido que tinha organizado as manifestações.

Por agora continuam as conversações entre as duas partes, num momento que também marcou o fim dos violentos protestos. É ainda desconhecido, no entanto, o futuro do embaixador francês no Paquistão.

Fontes: Lusa, TechCrunch, DW, International The News

Fonte da imagem de destaque: Rahat Dar/EPA