Quem é Xiomara Castro, a primeira mulher eleita Presidente das Honduras?

Já foi Primeira-dama de um governo interrompido por um golpe de Estado. Num país com 12 anos de conservadorismo e um historial de governo militar, traz como propostas a legalização do aborto e o combate à corrupção. Xiomara Castro é a primeira mulher a ser chefe de Estado das Honduras, num momento em que a América Latina parece virar novamente à esquerda.

Arrecadou o maior número de votos na história eleitoral do país e é a primeira mulher a ser chefe de Estado nas Honduras. Num país com 12 anos de conservadorismo e um historial de governo militar, traz como propostas a legalização do aborto e o combate à corrupção. Xiomara Castro é a primeira mulher a ser eleita Presidente da República nas Honduras, num momento em que a América Latina parece virar novamente à esquerda.

A líder do Partido da Liberdade e Refundação (Libre) foi declarada esta segunda-feira (20) presidente eleita das Honduras pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), depois de ter vencido as eleições gerais de 28 de novembro. Começará a exercer o poder a partir de 27 de janeiro de 2022, momento em que entra em vigor o seu mandato, por um período de quatro anos.

De primeira-dama a primeira Presidente

Íris Xiomara Castro de Zelaya tem 62 anos e nasceu numa família rural. Casou aos 17 anos com o primo, Manuel Zelaya, com quem tem quatro filhos. Formou-se em Administração de Empresas, mas a política há muito que faz parte do seu percurso. Atingiu a notoriedade pela primeira vez em 2007, quando o marido, Zelaya, conquistou a presidência das Honduras e fez dela Primeira-dama do país.

Desde 2005 que, anexada à campanha de Zelaya, Xiomara participou em vários comícios e organizou a fileira feminina do Partido Livre, de centro-esquerda, que agora encabeça. Foi responsável por aproximar a administração do marido à esquerda, nomeadamente a Hugo Chávez, antigo presidente da Venezuela.

Quando em 2009 se dá um golpe militar que destituí Zelaya do poder e origina uma grave crise política no país, o nome Xiomara Castro repetia-se nos jornais internacionais. Exigia o regresso do marido à presidência, com a mobilização de grandes protestos. Porém, Porfírio “Pepe” Lobo Sosa, do Partido Nacional, é eleito nesse ano e Xiomara torna-se umas das figuras mais importantes da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) e força política em ascensão.

Num país com liderança masculina clara nos cargos de poder, Castro candidatou-se pela primeira vez à presidência em 2012 pelo Partido Livre, que criou com o marido no ano anterior. Contudo, a vitória foi para Juan Orlando Hernández, Presidente das Honduras até à última eleição, deixando o país novamente sob o governo do Partido Nacional. Foi reeleito em 2017, contra Salvador Nasralla (atual aliado de Castro), um fenómeno que, ainda que proibido pela Constituição hondurenha, foi autorizado pelo Tribunal Constitucional.

Xiomara acusa o Partido Nacional de corrupção e de governar sobre uma “ditadura”. Foi no início de 2020 que apresentou a sua candidatura a Presidente com um currículo livre de acusações de crimes ou corrupção.

Com um percurso já longo, intrinsecamente ligado à política, no início do próximo ano, Xiomara Castro devolve a esquerda ao poder nas Honduras. Vestindo o marco histórico de primeira mulher a governar o país, Xiomara põe fim a doze anos de conservadorismo. Num conjunto de 14 candidatos, Xiomara Castro era uma de duas mulheres a fazer parte da série eleitoral das Honduras.

Vitória inequívoca com agenda progressista

No final de novembro deste ano, as sondagens dos resultados indicavam uma superioridade de cerca de 20% nos votos para Castro em contraposição a Nasry Asfura, do Partido Nacional. Segundo a RTP, Xiomara Castro prometeu “formar um governo de reconciliação, um governo de paz e de justiça”, de forma a instaurar uma “democracia participativa”. Num país de 10 milhões de habitantes, de acordo com a Comissão Nacional de Eleições, a participação eleitoral, já era considerada um recorde histórico: foi superior a 60%, e incluiu uma grande percentagem de jovens.

Na terça-feira, dia 30 de novembro, em Tegucigalpa, vitória da candidata consagrou-se com uma percentagem de 51% dos votos. Num diálogo com todos os setores da sociedade, Xiomara Castro pretende formar um governo em consonância com as necessidades e exigências do povo hondurenho. Na noite eleitoral, Castro proclamou: “Durante 12 anos o povo resistiu, e esses 12 anos não foram em vão. Deus demora, mas não esquece. Hoje o povo fez justiça”.

Durante a campanha eleitoral, a determinação de Castro era inegável: “Acredito firmemente que o socialismo democrático que proponho é a solução para puxar as Honduras do abismo em que o país foi enterrado pelo neoliberalismo, um narco-ditador e a corrupção”. Castro fez uma colisão com a União Nacional de Oposição de Honduras (Unoh), liderada por Salvador Nasralla, político e celebridade televisiva, que será vice-presidente ao lado de Xiomara.

Vestida de vermelho e preto na noite eleitoral, os seus oponentes acusavam o partido de Castro de ter vinculações comunistas, sobretudo, devido às ligações do marido a líderes socialistas como Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela. O Partido Nacional disse que, sob o governo de Castro, o país iria tornar-se num estado comunista.

Xiomara defende a legalização do aborto (para casos de violação, quando a gravidez ameaça a vida da mãe, ou devido a deformações do feto), o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e a educação sexual e racial nas escolas. As Honduras são um dos quatro países da América Latina que ainda proíbem o aborto em qualquer e toda a circunstância. Já em 2009, Castro candidatou-se sob a premissa dos direitos das mulheres. Este ano, voltou a eleger um mote feminista na sua campanha.

Combate à corrupção ameaçado por sombras do passado

Xiomara Castro terá de reconstruir um país pautado pela violência criminal, o tráfico de droga e uma elevada percentagem de emigração. Com vista a um socialismo democrático, Castro planeia desmantelar as redes de narcotráfico e criar uma agência de combate à corrupção (para a qual vai pedir o apoio da Nações Unidas). Além disso, pretende também uma revisão Constitucional e trabalhar em harmonia com o setor privado. Nas suas medidas estão também o corte ao apoio diplomático com Taiwan e a renovação dos laços com a China, o que pode causar tensões pelo país estar, historicamente, filiado aos Estados Unidos.

Ainda que o marido, Manuel Zelaya, tenha permanecido discreto durante a campanha, levantam-se questões sobre o poder que vai ter na administração de Castro, uma vez que é o fundador e o presidente do Partido Libre. Desta forma, os apoiantes mais conservadores de Castro preveem que, com a influência de Zelaya, as Honduras renovem os laços com a Venezuela e Cuba. Os mesmos apoiantes receiam que a proposta de alterações na Constituição moldada por políticas socialistas, cause uma tensão entre as Honduras e os Estados Unidos. Apesar disso, após a sua vitória, o Secretário de Estado norte americano Anthony Blinken já congratulou Xiomara Castro.

Por outro lado, a proposta da recém-eleita de reduzir as desigualdades económicas enfrenta o obstáculo da grave dívida económica do país, deixada pelo antigo presidente Hernandez. E as acusações que ligam Zelaya a casos de corrupção (o que o ex-presidente sempre negou), podem pôr em causa o objetivo de Castro de eliminação dos sistemas corruptos.

Na noite de 28 de novembro, a candidata prometeu acabar com “o ódio, a corrupção, o tráfico de droga, o crime organizado…”, não esquecendo que vai lutar pelas mulheres, exigindo respeito, na sua visão, “pelo que mais desejam: filhos e infância”. “Voltámos as costas ao autoritarismo”, declarou. Xiomara antevê grandes mudanças no país que tem servido as elites ricas desde os tempos coloniais. “Nunca mais o poder vai ser abusivo neste país”, prometeu.

Castro representa uma rutura com os modos tradicionais de governo das Honduras. Pela frente, tem o desafio de fazer cumprir as suas promessas num país tradicionalmente conservador e em profunda crise económica e social. Porém, os hondurenhos têm grandes expetativas na nova presidente, com a esperança de os levar numa nova direção.

O legado de um país instável

Com uma história de pobreza, governo militar, corrupção e crime, as Honduras são um país na América Central. Com um índice de criminalidade de quase 70%, o país é arrasado pela violência dos gangues de droga. O desemprego duplicou devido à pandemia (5,7% em 2019 para 10,9% em 2020), e 74% da população vive no limiar da pobreza, levando milhares de famílias a emigrar, todos os anos, para os Estados Unidos. Outro fator a piorar foi a sucessão de dois tornados, Eta e Iota que devastaram o território e destruíram famílias que não têm meios para se adaptar. Nos últimos tempos, o país tem também sido acusado de repressão contra jornalistas e ativistas climáticos e dos Direitos Humanos.

O Partido Nacional governou o país durante 12 anos pelas mãos de Juan Orlando Hernández. Porém, o seu governo foi marcado por escândalos e casos de corrupção. Em 2017, quando ganhava as eleições presidências pela segunda vez, contra Salvador Nasralla, várias pessoas morreram às mãos das forças de segurança, em protesto contra os resultados, cuja contagem foi considerada uma alegada fraude pela oposição e por peritos internacionais. Visto como símbolo de autoritarismo, Hernández foi acusado de má gestão da economia e da pandemia no país e de criar divisões na população hondurenha. Em 2019, o seu irmão Juan Antonio “Tony” Hernández foi preso por traficar droga nos Estados Unidos, levando a alegadas acusações de Juan Orlando como cúmplice de conspiração de tráfico de droga, correndo agora o risco de ser extraditado e julgado nos EUA.

É assim que, nos últimos anos, as Honduras se tornaram uma nação subjugada ao poder dos cartéis de droga, que invadiram todas as esferas da sociedade, nomeadamente a política, criando um problema crónico. É este país de frágeis infraestruturas sociais, políticas e económicas que Xiomara Castro vai herdar. A primeira mulher presidente das Honduras, candidata do Partido “Libre”, vai tomar o cargo do então Presidente Juan Orlando, e, de acordo com a BBC, no seu último comício de campanha prometeu reorganizar o país, tirando-o de um «abismo» de ditadura, corrupção e narcotráfico.   

Fontes: BBC, RTP Notícias, Expresso, Diário de Notícias, The New York Times, The Guardian, The Washington Post, Reuters