Protestos civis, repressão militar e instabilidade política continuam no Sudão

Das manifestações resultaram já 45 mortos e mais de uma centena de feridos, segundo um comité de médicos sudaneses.

Desde o golpe militar de 25 de outubro de 2021, houve já nove protestos em massa na capital do Sudão, reprimidos por balas e gás lacrimogéneo por parte das forças de segurança. O primeiro-ministro recentemente reinserido Abdalla Hamdok demitiu-se, entre exigências do povo para uma transição total de poder para um governo civil, por meio de greves e desobediência.

A tensão entre militares e o povo sudanês não dá mostras de abrandar. As manifestações convocadas por partidos da oposição e comités de resistência vão já perto de uma dezena, desde o golpe de Estado do passado mês de outubro, em que as forças de segurança assumiram a totalidade do poder, destituindo e prendendo políticos e dissolvendo um Governo de Transição partilhado com os civis que estava em vigor desde 2019.

O Comité Central de Médicos Sudaneses fala em, pelo menos, 45 mortes e mais de uma centena de feridos, aos quais se somam, ainda, 13 acusações de violação por parte dos militares, estas relativas ao protesto do dia 19 de dezembro, que trouxe centenas de milhares de pessoas às ruas de Cartum, a capital do país do leste africano.

Os militares têm reprimido os protestantes com gás lacrimogéneo e balas verdadeiras, sobretudo quando estes se concentraram junto à entrada do palácio presidencial, durante o fim de semana de 18 e 19 de dezembro, numa manifestação que juntou sudaneses vindos de todo o país.

A crise política que se vive acabou por se agravar, com o primeiro-ministro Abdalla Hamdok a demitir-se do cargo, no dia 3 de janeiro. Este fora reinserido no poder, após ter sido colocado em prisão domiciliária pelo autores do golpe de Estado.

A reinserção surgiu aquando de um acordo com os militares, mas acabou por ser um novo catalisador de protestos, visto que, entre vários objetivos, pretendia a formação de um novo governo formado por tecnocratas sem filiação partidária, algo com que muitos civis não concordam.

O Sudão vivia, desde 1989, sob um regime autoritário, liderado pelo presidente Omar Al-Bashir, que se manteve no poder durante 30 anos quase ininterruptos.

A 11 de abril de 2019, após meses com um crescendo de protestos, os militares sudaneses levam a cabo um golpe de Estado, destituindo e prendendo o presidente.

Formou-se, então, um Concelho Militar de Transição (CMT), que concentrava todos os poderes de governação nos autores do golpe e previa-se que este novo órgão, autoeleito, governasse o país por três anos, enquanto se aguardavam eleições livres. Gerou-se, contudo, uma onda de protestos por parte de civis, que exigiam a criação de um corpo interino composto por representantes dos mesmos.

A 5 de julho de 2019, os dois lados chegaram, então, a um acordo de partilha de poder: o CMT ficaria encarregue de liderar os destinos da nação nos primeiros 21 meses, dando, depois, lugar a uma administração civil, nos 18 meses restantes para as eleições.

Porém, as tensões foram, de novo, aumentando, com novas manifestações a surgir, umas a favor de um governo civil, outras a favor de um golpe militar, numa fase em que o CMT implementava duras reformas económicas para tentar fazer frente à dívida do país.

Assim, a 25 de outubro de 2021, um grupo de militares, liderado pelo general Abdel Fattah Al Burhan, tomou conta das instalações de rádio e televisão, deteve vários líderes políticos, entre os quais o primeiro-ministro Abdalla Hamdok, e cortou a Internet em todo o Sudão: um novo Golpe de Estado. O Governo de transição dissolveu-se e foi declarado o Estado de Emergência nacional.

Os militares continuam a afirmar-se dispostos a encontrar uma solução democrática para o país, pese embora muitos civis temerem que tais promessas não venham a ser cumpridas.

Por enquanto, muitas empresas e lojas permanecem fechadas em Cartum e Omdurman (cidade vizinha), na sequência dos apelos à greve e desobediência civil por parte dos movimentos de protesto.

As eleições livres continuam previstas para julho de 2023.

Fontes: CNN, Aljazeera, SIC Notícias, Reuters

Imagem: BScar23625/Flickr