“Paris is burning”

Esta é a primeira crónica da série "Crónicas da Bastilha", uma coleção de histórias e reflexões sobre França no caminho para as eleições presidenciais de abril. Esta primeira missiva chega de Paris, de onde a nossa cronista relata a sua chegada e o contexto social e político que vai marcar o país nos próximos meses. Para acompanhar regularmente na Sentinela.

“Uma real generosidade para com o futuro reside em entregar tudo ao presente.”

Albert Camus, Notebooks 1935-1942

Paris, 12 de janeiro de 2022

A natureza da partida coloca-nos em confronto direto com a questão do que descobrimos tanto sobre o mundo como sobre nós no caminho. Prognósticos só se fazem realmente no final do jogo. Mas talvez enquadrar a ida nalgum mapa mental e num sistema de lógica ajude a acalmar a entropia.

Portanto, Paris está a arder. A crise pandémica da covid-19 tem contribuído para o aprofundamento das divisões nacionais, com uma forte resistência política e ideológica às políticas de vacinação. Ainda esta semana, Macron confessou a sua disposição em “irritar” aqueles que não se vacinaram contra a covid-19, três meses antes das eleições presidenciais. As suas declarações desencadearam uma tempestade política, da esquerda radical à extrema direita, alimentando a opinião pública da arrogância do presidente.

Em relação ao panorama sócio-político, a décima-segunda eleição presidencial da Quinta República Francesa será realizada nos dias 10 e 24 de abril de 2022. Emmanuel Macron confirmou ter vontade de se apresentar à reeleição, enfrentando a ascensão da candidata de direita d’Os Republicanos, Valérie Pécresse. As últimas sondagens dão uma pequena vantagem ao Presidente francês contra Valérie Pécresse, com dois candidatos de extrema-direita: a deputada Marine Le Pen e o Éric Zemmour. Nenhum dos candidatos de esquerda obtém mais de 10% das intenções de voto nas sondagens. Mas sobre estas eleições ainda nada está fechado.

Além disso, pensamos em problemas estruturais como o racismo estrutural, colocado em evidência pela força do legado da Revolução Francesa – o universalismo francês, que se apresenta como assimilante da cultura e dos valores francófonos. Pensamos também num país tão laico ao ponto de se opôr à demonstração de elementos de pertença de outros grupos étnicos ou culturais. Por exemplo, em 2010, o Senado francês aprovou, com 246 a favor e um contra, a lei que proíbe o uso em lugares públicos de véus islâmicos que cubrissem total ou parcialmente o rosto da mulher.  Algumas mulheres disseram que continuariam a usar o véu integral para pressionar o Estado francês, apesar da multa prevista de 150 euros.

Fundamentalmente, estas não passam de observações superficiais sobre um contexto nacional fragmentado, que é transversal ao globo: um contexto de turbulência nos ramos social e da saúde pública. Enquanto é confrontada com a violência das suas políticas imperialistas, França continua a manter uma posição de liderança em organizações como a União Europeia ou a ONU, continuando a conseguir impor como nação a sua agenda (pense-se no debate europeu sobre energia nuclear).

Este olhar continuará a acompanhar a minha estadia aqui, nesta crónica regular. Durante os próximos meses que passarei em Paris, continuarei a refletir sobre a atualidade da vida política e social francesa na jornada até às eleições, dos eventos da vida parisiense à arena pública – e até regressar a casa.