Evergrande, a empresa chinesa que deixou o mundo em alerta

Em setembro de 2021 a Evergrande foi notícia após falhar o pagamento dos juros de uma dívida e de entrar em incumprimento, resultando numa grande queda dos mercados e colocando o mundo em estado de alerta com a possibilidade da empresa imobiliária chinesa ser uma versão 2.0 do banco Lehman Brothers. Após mais de quatro meses, o que alterou e quais as expectativas dos economistas perante este problema?

O que é a Evergrande?

Fundada em 1996 por Xu Jianyin em Guangzhou, a Evergrande é a segunda maior empresa imobiliária da China. Fruto dos diversos projetos urbanos desenvolvidos pela China nos últimos anos, a empresa cresceu, alargando a sua área de influência.

Além do ramo imobiliário, o grupo Evergrande investiu nos mais diversos setores de atividade. O ramo dos seguros, o mercado dos carros elétricos, a indústria alimentar ou o futebol são exemplos da enorme influência da empresa. O futebol é, porventura, o negócio mais mediático da Evergrande, fruto da projeção internacional que alcançou. A empresa imobiliária detém e dá nome ao Guanzhou Evergrande FC. O clube foi comprado em 2010 quando o clube estava na segunda divisão e foi catapultado para o sucesso a nível nacional e continental.

A empresa contava, em setembro de 2021, com mais de 1300 projetos em quase 300 cidades e empregava diretamente mais de 200 mil pessoas e indiretamente perto de quatro milhões. De acordo com a Forbes, Xu Jiayin é também uma das pessoas mais ricas da China, com uma fortuna avaliada em cerca de 10,6 mil milhões de dólares (aproximadamente 9,3 mil milhões de euros).

Dívida crescente e mudanças na regulamentação do mercado

O mercado imobiliário é visto como um investimento, chegando a ser para muitos o único investimento em vida, o que se traduziu numa escalada dos preços da habitação acima dos 10% ao ano nos últimos dez anos. Durante anos, a empresa cresceu de forma desenfreada seguindo um determinado modelo de negócio que só pode ser compreendido tendo em conta o modelo económico chinês.

O governo detém as propriedades, vendendo concessões de 99 anos às empresas imobiliárias, como a Evergrande. Assim, a Evergrande adquire propriedades, projeta os edifícios e vende os apartamentos antes de começar a obra. O dinheiro recebido serve para contrair mais dívida e obter mais concessões para novas obras, num círculo infindável: mais dívida, mais propriedades e assim consecutivamente.

Foi deste modo que a empresa cresceu a um ritmo muito elevado. Segundo a Fortune Global 500 de 2021, a Evergrande é a 122ª maior empresa do mundo em termos de receita. Por outro lado, acumulou uma dívida superior a 300 mil milhões de dólares (256 mil milhões de euros), valor que equivale a cerca de 3% do PIB da China e que, de acordo com analistas consultados pelo The Guardian, a torna na empresa imobiliária mais endividada do mundo.

A incerteza em torno da empresa não é novidade e levou, por exemplo, a que o preço das ações caísse quase 90% num ano. Porém, em setembro de 2021 os alarmes começaram a soar mais alto quando a empresa falhou os pagamentos dos juros, aumentando os receios de uma falência.

A regulamentação do mercado também afetou a Evergrande. A política de Xi Jinping desde 2013, ano em que assumiu o cargo de presidente da China, tem-se focado na redução da dívida, afirmando que “a China precisa de alterar o foco para melhorar a qualidade e os retornos do crescimento económico de modo a procurar um crescimento genuíno e não inflacionado do PIB”.

Neste sentido, em 2021 Xi Jinping introduziu as chamadas “três linhas vermelhas” que limitaram a capacidade das empresas pedirem empréstimos. Assim, os reguladores devem avaliar a situação financeira das empresas de acordo com três critérios:

  1. Os passivos não podem ser superiores a 70% dos ativos (excluindo receitas antecipadas de projetos vendidos sob contrato);
  2. A dívida líquida não deve exceder o património líquido;
  3. O dinheiro em caixa deve, pelo menos, ser igual aos empréstimos de curto prazo

Se as empresas falharem algum destes critérios, os reguladores limitam a possibilidade destas contraírem dívida de acordo com o esquema abaixo:

As medidas foram bem-vindas por muitos, como por exemplo a UBS Asset Management que expressou a sua “confiança no alcance destas políticas” que permitiriam a saúde financeira de empresas como a Evergrande.

Porém, o grupo chinês, incapaz de gerar a liquidez necessária para gerir a dívida e com dificuldades em refinanciar os empréstimos, admitiu a possibilidade de não conseguir vender ativos a tempo de cumprir os compromissos para com os credores. A Evergrande chegou a oferecer as casas com descontos para garantir a liquidez necessária ao funcionamento do negócio, mas os compradores perderam a confiança.

Outra das estratégias assumidas pela empresa imobiliária foi pressionar os empregados a emprestar dinheiro. Os empréstimos foram apresentados como esquemas de investimento com juros altos, mas quem não participasse corria o risco de perder os bónus. Em setembro de 2021 a Evergrande deixou de pagar aos funcionários que se têm manifestado à porta da empresa, exigindo o dinheiro de volta.

Potencial problema

O desenrolar da situação e uma eventual falência da Evergrande apresenta vários riscos a diversos níveis.

Em primeiro lugar, muitas pessoas que compraram propriedades antes destas estarem construídas podem perder o dinheiro investido. Os milhões de trabalhadores têm também o seu lugar em risco, um número ainda maior quando considerados os trabalhadores das empresas que dependem da Evergrande para a sua sobrevivência. Estas empresas, por exemplo de construção ou de design, teriam perdas elevadas que poderiam levar à bancarrota.

Também o sistema financeiro chinês seria atingido e os bancos e credores seriam forçados a emprestar menos, o que poderia criar uma crise de crédito em que as empresas teriam dificuldades em emprestar dinheiro a taxas acessíveis e, consequentemente, a crescer podendo pôr em causa a continuidade destas operações.

Uma crise também teria impacto a nível do investimento estrangeiro na China uma vez que o país seria visto como menos atrativo para os investimentos.

Comparação com o Lehman Brothers

Fruto dos riscos, muitos começaram a comparar a recear uma crise semelhante à de 2008 desencadeada com a queda do Lehamn Brothers. Ainda assim, a maioria dos analistas adota uma visão mais cautelosa. Gabriel Felbermayr, presidente do Kiel Institute for the World Economy, distanciou as duas realidades, afirmando que “este não é um momento Lehman Brothers. O problema do Evergrande é basicamente chinês e não há um envolvimento em grande escala dos investidores internacionais”.

Também ao nível da previsibilidade a situação é diferente. Segundo Vinesh Motwani, diretor-geral da Silk Road Research, “a Evergrande ser um acidente que todos já esperavam é a maior diferença entre as duas”. Segundo Motwani, “desde o anúncio da política das «três linhas vermelhas que a Evergrande» é vista como uma das maiores infratores”.

De forma a considerar todas estas dimensões, Rory Green, chefe do departamento da China e Ásia da TS Lombard, considera esta crise um “rinoceronte cinzento”. Ao contrário da crise de 2008 – um “cisne negro” inesperado – a crise da Evergrande é caracterizada como óbvia e provável, sendo um ameaça à qual as pessoas têm a possibilidade de responder.

Outra diferença entre as duas crises é a intervenção do governo. Enquanto no colapso do Lehman Brothers, o governo norte-americano teve de legislar a possibilidade de intervir, o governo chinês não tem este problema.

A abordagem da China tem também sido diferente. Enquanto os EUA resgataram alguns dos maiores bancos do mundo, a China tem concentrado as suas operações exclusivamente na Evergrande. Alicia Garcia Herrero, chefe do departamento de economia da Ásia e Pacífico do banco Natixis compara a atuação do governo chinês a um cirurgião a operar um tumor e que procura “o que é necessário salvar”. No caso do governo chinês, a prioridade tem sido dada à conclusão da construção de casas de modo a não afetar a confiança das pessoas no setor.

Desenvolvimentos

Desde setembro a situação tem tido desenvolvimentos. Embora ainda esteja longe de estar resolvida, continuando a empresa a tentar cortar nos custos de forma a pagar a enorme dívida contraída.

A 11 de janeiro de 2022 foi notícia a saída da Evergrade da sede em Shenzen. Em comunicado a empresa realçou que “de forma a reduzir os custos, a Evergrande iniciou os procedimentos para cancelar os contratos de arrendamento no Houhai Excellence Center”, instalando-se noutro edifício já possuído na empresa.

Também em janeiro a Evergrande conseguiu adiar em seis meses o pagamento de títulos. Originalmente previstos para 2023, o adiamento por meio ano foi acordado após os detentores de títulos exercerem uma opção que exigia o pagamento um ano antes do vencimento do título.

O adiamento permite assim aliviar um pouco a situação da Evergrande. Ainda assim, a empresa continua a ter que lidar com uma situação financeira muito instável, fruto da enorme dívida e já foi forçada a desfazer-se de ativos, a entregar terras não utilizadas ao governo e a suspender alguns projetos de construção.

Fontes: BBC, South China Morning Post, The Guardian, TVI, Visão

Imagem de destaque: Reuters