Cazaquistão. O rescaldo de semanas de protestos com centenas de mortos e milhares de detidos

As manifestações começaram numa cidade de província, como protesto contra a subida dos preços dos combustíveis, mas rapidamente se espalharam por todo o país, ganhando, também, motivos políticos contra o regime.
Cazaquistao

Após semanas de protestos violentos por todo o Cazaquistão, contam-se 225 mortos e mais de 2000 detidos, a maioria civis. A tensão acalmou num espaço de uma semana, após o presidente Kassym-Jomart Tokayev pedir ajuda ao exército russo e autorizar as forças de segurança a disparar letalmente contra os manifestantes.

No primeiro dia de 2022, o preço dos combustíveis duplicou no Cazaquistão. A inflação gerou uma série de manifestações, ao início concentradas numa cidade no leste do país. Em poucos dias, porém, os protestos espalharam-se por todo o território nacional, chegando a Almaty, a maior cidade do Cazaquistão, onde ganharam maior expressividade.

Ao início, as manifestações foram pacíficas, mas a violência acabou por manchar os protestos, gerando danos materiais a rondar os 175 milhões de euros, segundo o Ministro da Administração Interna do país da ásia ocidental, o que motivou o governo a regular os preços de imediato.

Nesta fase, contudo, os protestos já não se resumiam apenas ao custo dos combustíveis, com muitos cazaques a aproveitar o contexto para mostrar o seu descontentamento para com o regime liderado por Tokayev, num país com enormes desigualdades económicas e sociais.

Perante a forte contestação, o presidente declarou o estado de emergência nacional e cortou a internet por todo o país. Num comunicado oficial do governo, atribuiu as responsabilidades a terroristas estrangeiros, sem qualquer fundamento, e autorizou as forças de segurança (polícia e exército) a disparar letalmente contra os manifestantes.

Por fim, acabou por pedir ajuda internacional à “Organização do Tratado de Segurança Coletiva” (OTSC), uma aliança militar regional entre o Cazaquistão e a Rússia, que enviou 2500 soldados, numa ocorrência sem precedentes, uma vez que nunca o país pedira ajuda internacional para resolver conflitos políticos internos. Em cerca de uma semana, os protestos acalmaram.

As vagas de violência causaram 225 mortes, 19 das quais relativas a elementos das forças de segurança, e mais de 2000 detidos, sendo a maioria cidadãos comuns que se manifestavam pacificamente.

Dinastia Nazarbayev sem fim à vista

O Cazaquistão é o país com a maior economia da Ásia Central, tendo acesso a enormes reservas de petróleo, gás natural e vários minérios, num território com a área aproximada da Europa Ocidental. Esta riqueza, porém, encontra-se distribuída de forma altamente desequilibrada, pela população – num país com 19 milhões de habitantes, 162 detêm metade da riqueza nacional.

Após conseguir a sua independência da antiga União Soviética, em 1991, o Cazaquistão foi governado, durante 30 anos ininterruptos, pelo mesmo presidente, Nursultan Nazarbayev, que instaurou um regime autocrata, em que a oposição era proibida.

A longo prazo, este crescimento foi acentuando as diferenças entre as pessoas, catalisadas pelos efeitos da pandemia de Covid-19. Hoje, o país conta com um pequeno grupo de magnatas milionários, enquanto o salário médio nacional fica pouco acima dos 500€ mensais.

Em 2019, Nazarbayev parecia abandonar, finalmente, o poder, delegando a liderança do país para as mãos de Kassym-Jomart Tokayev, escolhido pelo próprio para lhe suceder. Manteve-se, porém, em funções no governo, agora enquanto “Líder da Nação”, o que, na prática, significa que continua a estar acima de Tokayev nas tomadas de decisão.

Preço do petróleo e inflação na origem dos protestos

Perante este cenário, a tensão foi-se acumulando entre o povo cazaque, que acabou por aproveitar o pretexto dos combustíveis para dar voz ao seu descontentamento com o regime que há mais de três décadas se vê manchado pelas desigualdades, pela corrupção e pela ausência de democracia.

A reação repressiva do governo, por sua vez, terá originado conflitos ao nível dos líderes máximos do país. Isto porque, durante a maior parte do tempo, enquanto decorriam os protestos nas ruas, não se soube do paradeiro de Nazarbayev. O ex-presidente acabou por vir a público desmentir um suposto desaparecimento, numa altura em que já se teorizava que pudesse ter abandonado o país. Fê-lo através de um vídeo oficial do governo, negando, no mesmo, quaisquer divisões entre os líderes máximos do Cazaquistão.

Estas afirmações acabaram postas em causa, quando se noticiou a prisão do chefe dos serviços secretos, acusado de traição, tendo sido um aliado próximo de Nazarbayev. Entretanto, foi ainda tornado público que Nazarbayev acabara por reforçar ainda mais o seu poder, tornando-se presidente do Conselho de Segurança, cargo que pertencia a Tokayev.

Investido destes novos poderes, o “líder da nação” acabou por dissolver o governo, elegendo um novo primeiro-ministro e um novo Conselho Nacional. A nova liderança anunciou de imediato uma série de reformas, como aumentos nos impostos cobrados a empresas mineiras e um novo fundo social que as pessoas e empresas mais ricas devem financiar, mas, na prática, ainda nada foi aplicado.

Fonte: Al Jazeera