Construir uma nação afegã era um sonho destinado ao fracasso

O regresso dos Talibãs ao poder abre um novo, mas inevitável, capítulo numa história turbulenta para o Afeganistão, depois da invasão soviética de 1979.

A farsa da criação de um Estado no Afeganistão, caído por terra no momento em que o apoio internacional foi retirado, serve-nos de lição sobre a ambiciosa ingenuidade ocidental de construir nações, neste caso, num país apelidado de “cemitério dos impérios”.

Entraves à partida

A reconstrução do Afeganistão traz consigo profundas dificuldades, talvez as mais importantes sendo as geográficas. O país é cercado por terra e faz fronteira com o Paquistão (principal apoiante dos Talibãs) e o Irão, cujos líderes veem uma oportunidade de desafiar a hegemonia americana como um trunfo para qualquer desejo de estabilidade na região.

As tentativas internacionais de persuadir estes vizinhos de que a estabilidade seria preferível falharam redondamente, visto que o Afeganistão é essencialmente secundário em relação a outras prioridades de política externa, nomeadamente a tensão entre Teerão e Washington, bem como a confrontação entre o Paquistão e a Índia, com Islamabad a recear um governo pró-Índia em Cabul. Com dois vizinhos tão importantes, e uma intenção de minar qualquer construção nacional, um esforço penoso era inevitável.

A economia é outro fator importante. Para além de uma riqueza mineral em grande parte inexplorada devido a preocupações securitárias, o Afeganistão nunca teve a oportunidade de possuir qualquer vantagem comparativa a nível comercial. Narcóticos – ópio e, mais recentemente, metanfetaminas – a extração ilegal de minério e o abate de árvores são os fluxos de rendimento mais significativos no país.

Assim, tentar criar um Estado de Direito num país com atividades económicas maioritariamente ilícitas acrescenta uma camada adicional de complexidade, uma vez que diversos atores na região, com largos interesses lucrativos, se opõem à extensão do poder do Estado a áreas onde a ilegalidade reina. E uma vez que várias personalidades dentro do aparelho estatal estavam elas próprias a beneficiar com essas atividades, a ausência de alternativas lucrativas era, até hoje, um desafio permanente.

Além do mais, a sociedade afegã nunca apresentou um conceito de Estado-nação homogéneo e monolinguístico, englobando vários grupos étnicos, cada um dos quais estendendo-se para lá de fronteiras obtusamente delineadas. Gerir estas dinâmicas, bem como conflitos internos entre clãs era por si só algo delicado e a chegada de forças internacionais altamente armadas, que tentaram resolver essas disputas alegando que inimigos de longa data eram, de facto, simplesmente aliados, perpetuaram o conflito.

“Democracia” construída para falhar?

A tentativa de democratizar o Afeganistão significava que, embora um projeto de construção nacional demorasse décadas no mínimo, o governo mudava a cada quatro ou cinco anos. Para além duma falta de legitimidade e raízes inexistentes no que consta a uma sociedade civil robusta e participativa, capaz de exigir accountability perante forças governamentais, um impasse havia sido alcançado nos últimos anos, com as forças Talibãs sem capacidades de tomar os centros urbanos enquanto as potências ocidentais permanecessem no país.

Este contexto poderia ter persistido indefinidamente, mas a verdade é que a opinião pública, sobretudo nos EUA, opunha-se cada vez mais à presença americana na região. Assim, uma vez feito o anúncio de que as tropas americanas iriam abandonar o local, os talibãs sabiam que podiam simplesmente esperar pela oportunidade certa.

A verdade é que a impopularidade dos talibãs foi talvez a maior (e única) vantagem da coligação internacional liderada por Washington, na medida em que a invasão não envolveu a destituição de um governo popular, mas sim de uma organização terrorista.

O problema foi, após a libertação, a lição imediata aprendida na facilidade com que os opositores menos poderosos podiam ser derrubados – lições então aplicadas ao Iraque. O povo afegão viu poucos benefícios imediatos até que a missão de nation-building fosse embarcada alguns anos mais tarde, dando aos Talibãs tempo para se reagruparem em locais seguros nas áreas tribais do Paquistão.

Outra falha evitável foi a confiança demonstrada por George W. Bush para com o presidente do Paquistão, General Musharraf. Se os americanos tivessem exigido que o Paquistão agisse contra os Talibãs nas áreas tribais ao mesmo tempo da invasão, os resultados poderiam ter sido diferentes.

Aliás, a constante distinção entre “bons” Talibãs que lutaram no Afeganistão e “maus” que visavam ataques ao Paquistão, custou caro a Islamabad. Quando o país finalmente decidiu lançar uma ação militar sustentada nas suas áreas tribais em 2014, mais de 60.000 paquistaneses haviam sido mortos pelos Tehrik-i-Taliban Pakistan, uma organização fundamentalista islâmica associada aos Talibãs.

A miopia securitária

O período anterior à tentativa de construção nacional deu também lugar a outras falhas, uma vez que a prioridade número um continuou a ser a míope proteção da força e da segurança, e não a construção viável de uma nação. Nisto, a cooptação de mediadores locais inviabilizou quaisquer esforços de justiça transitória num país já mergulhado em guerra civil há mais de duas décadas, minado pelo caminho outros esforços no alargamento do aparelho estatal.

Subjacente a tudo isto estava uma certa tolerância da corrupção que serviu como um grito de protesto para os Talibãs e destaca ainda mais as dificuldades de qualquer estabilidade democrática. Mais ainda, a maioria dos afegãos – e não apenas os Talibãs – duvidava que a presença internacional fosse indefinida.

A constante possibilidade de um futuro colapso do Estado constituiu um incentivo substancial para as famílias assegurarem o seu bem-estar futuro, reduzindo quaisquer fundos disponíveis para – e, portanto, a probabilidade de – criar um Estado, pois quanto maiores fossem esses fundos, maior seria a viabilidade da corrupção. Se investimentos de menor soma fossem canalizados para mais unidades administrativas locais, a prestação de serviços poderia ter sido mais eficaz, reforçando alguma legitimidade governamental.

No entanto, mesmo que uma devolução das finanças (se não do poder político), uma abordagem mais assertiva em relação ao Paquistão, e algumas primeiras demonstrações dos benefícios de um governo pós-talibã pudessem ter feito a diferença, os desafios subjacentes teriam permanecido. Uma abordagem diferente teria simplesmente permitido que a transição de poder que ocorreu em Setembro levasse meses ou anos, em vez de apenas algumas horas.