Ayisha Siddiqa: “É muito doloroso para mim que tenha sido preciso uma menina loira de olhos azuis para que o Ocidente se importasse com o clima”

Nasceu e cresceu numa aldeia tribal, Moochivala, no Paquistão. Hoje, com 22 anos, vive e estuda em Nova Iorque e é cofundadora da 'Polluters Out'. Ayisha fala-nos das lições do Sul Global sobre a indiferença do ser humano, as lutas indígenas e justiça social e climática. Com o olhar de quem cresceu no Paquistão depois do 11 de Setembro.

A quinta edição dos Encontros Internacionais Ecossocialistas, organizada por coletivos e organizações portugueses e internacionais, realizou-se entre os dias 21 e 23 de janeiro, em Lisboa. Ativistas internacionais reuniram-se na capital portuguesa para uma ronda de conferências sobre soluções de combate à crise climática, com o ecossocialismo no centro da mesa. A Sentinela lança, agora, uma série de entrevistas a alguns dos ativistas presentes.

Nasceu e cresceu numa aldeia tribal, Moochivala, no Paquistão. Hoje, Aisha Siddiqa, de 22 anos, vive e estuda em Nova Iorque. Para ela, ser ativista é um privilégio. Crítica do movimento climático estudantil, Fridays For Future, e atenta àquilo que nos (in)diferenciou: a condição humana ao longo da História. Nos Encontros Ecossocialistas falou sobre o tema We Are the Majority Building an Intersectional Global Movement.

És cofundadora de um coletivo internacional – PollutersOut. Defendem uma sociedade livre de combustíveis fósseis. Que tipo de ações fazem?

As nossas ações são voltadas para as Nações Unidas e, portanto, são: uma, fazer com que a ONU parasse de aceitar dinheiro das indústrias de combustíveis fósseis para sediar a Conferência das Partes. Na COP fizemos várias ações, nós reunimos pessoas e protestámos dentro da Conferência, com o Fridays For Future. Mas também criámos uma campanha digital, também física. Então, em Glasgow, colocámos cartazes por todo o lado, no metrô, nas ruas, e que mencionavam todas as empresas e corporações de combustíveis fósseis, hospedadas na COP26. Havia um código QR, e as pessoas podiam simplesmente pegar no telemóvel, pressionar o código e levá-las-ia aos patrocinadores desta COP e a todos os seus crimes contra a humanidade, que estavam referidos na nossa página. Então, foi uma campanha muito elaborada, e foi um esforço para que as pessoas percebessem quem exatamente estava hospedado na COP, de onde vinha o dinheiro e por que era mau.

Outras campanhas que fazemos estão a trabalhar com indígenas de todo o mundo. E houve uma campanha de defensores de descendentes, que foi numa cidade onde ocorriam assassinatos na América Latina, e envolvemos todo o movimento. No início da pandemia, nós também realizámos um comício virtual para desvendar os Polluters. E esse comício foi um pouco diferente porque encorajámos ativamente as pessoas a fazer cyberbullying à indústria de combustíveis fósseis. E o que isso significa é: há muita propaganda que a indústria de combustíveis fósseis divulga. Shell, Exon… eles colocam diversidade na página deles: no Dia da Mulher, dizem que têm muita liderança feminina; e no Mês da História Negra, que têm muita representatividade negra. Mas também matam mulheres, e pessoas negras, e crianças. Então, nós encorajamos as pessoas a anunciarem as suas vidas na Internet. E eu fiz isso com a minha amiga Mary, e tirámos muitos anúncios de propaganda deles. E foi muito bom, para desvendar os factos. Não é retórico, é do tipo: ah, então dizem que querem representar as mulheres, então por que contribuíram para o assassinato de cinco mulheres, no Equador? Respondam por isso. E essa é outra tática que usamos.

Houve algum momento crítico que te fez aderir ao movimento climático ou o teu envolvimento foi progressivo?

Foi progressivo. Eu não tenho um momento. Mas eu sei por que entrei e é uma mistura de duas coisas. Um: o meu contexto de vida e onde cresci. E dois: onde moro atualmente. Eu venho do Paquistão, especificamente do norte do Paquistão. Fazemos fronteira com o Afeganistão, Irão, Índia e China. Depois do 11 de Setembro, em 2001, o meu país experienciou guerra, a guerra contra o terrorismo. E os Estados Unidos bombardearam-nos 80 vezes. Os condados fronteiriços também foram bombardeados. E havia apenas violência e morte. Houve ataques suicidas e atentados suicidas à bomba de terroristas, houve ataques dos EUA para apanhar os terroristas, e o meu país, que é um país muito pobre, passou por um período de dor e horror. Esse cenário estendeu-se ao Afeganistão, Síria, Iraque, Irão… toda a região do Médio Oriente. Fomos bombardeados por petróleo, fomos atacados por petróleo. As cabeças das pessoas foram separadas de seus corpos.

Toda a minha região, pessoas que se parecem comigo, que compartilham a mesma língua que eu, que se identificam com a mesma religião que eu, tornaram-se ameaças. No mundo todo. Mas ninguém se apercebeu que fomos considerados ameaças para que os EUA, o Reino Unido e a Rússia, e o Norte Global, pudessem vir e levar os nossos recursos. Então, nós tornámo-nos perigosos em todo o mundo, mas o nosso povo estava a morrer, as nossas mães eram violadas, os nossos filhos estavam a morrer de fome. E grande parte desse contingente são refugiados. Porque, depois de a nossa terra ser completamente arrasada, depois de a nossa economia se deteriorar, depois de o nosso Presidente ter sido assassinado, toda esta região está sofrer. E isso está relacionado com a crise climática.

De que forma?

O Presidente Bush, dos EUA, e o seu secretário de Estado reconheceram que entraram em guerra por causa do petróleo. Os governos dos EUA, todos, neste momento, não o negam. Eles aterrorizaram toda uma região de pessoas, milhões e milhões, por petróleo. E essa é uma das razões pelas quais estou envolvida no movimento climático. Eu relaciono as mudanças climáticas não com o carbono, mas com a guerra e a morte. E a poluição, na minha experiência, tem sido uma arma biológica. As bombas causaram envenenamentos por urânio, causaram cancro, causaram deficiências e mutilações. No rescaldo, ninguém estuda o que acontece com o tipo de defeitos congénitos depois de toda a nossa região ter sido bombardeada. E há tantos defeitos congénitos em partes da Síria, Iraque, Afeganistão. Por todos os bombardeamentos sofridos, por todas as extrações que eles têm vindo a fazer. E isto é como algo cultural, como se fosse um quadro geral.

Mas com uma particularidade. É que eu sou de uma área tribal chamada Moochivala. Eu nasci lá, eu cresci lá, a minha família, por centenas de anos, vem daquela parte do mundo. E também dependemos do espaço e de um rio chamado Rio Chenab, para água. Nos últimos 20 anos, a nossa água tem estado poluída. Existem várias barragens de carvão que são construídas a montante e lançam, massivamente, resíduos tóxicos que escorrem no fluxo de água. E para a minha família – porque não vivemos numa cidade, porque a nossa área é pouco desenvolvida – a água está completamente poluída. Perdi o meu avô para o cancro de sangue, porque havia poluentes na água. Perdi a minha avó para a poliomielite, porque a nossa água estava suja. A minha prima de seis anos teve apendicite, novamente, por causa das condições, e ela morreu. Depois, a minha prima de 19 anos teve tétano e morreu. Novamente, por causa das condições de vida.

Ayisha Siddiqa na COP26, em novembro 2021

Além disso, entre 2004 e 2016, durante a guerra, o Paquistão teve uma grande escassez de energia. A minha aldeia tinha energia por quatro horas por um dia, e depois não havia eletricidade. E quando tu não tens eletricidade, tu não podes ir trabalhar, tu não podes operar as tuas máquinas, tu nem podes ligar o computador. Esta escassez de energia em massa também foi algo que eu gostaria de abordar. Eu moro no Norte Global, e toda a gente está a falar sobre energia verde, transição energética, renováveis. Mas a parte do mundo de onde venho ainda não tem sequer energia, ponto final. Não é energia renovável, eles nem têm energia movida a carvão ou energia a petróleo, porque, até hoje, ainda são caras. O meu país é muito pobre para as pagar.

Isso significa que uma grande parte da minha população está desempregada e não pode ir trabalhar. Isso significa que usamos geradores para aquecimento durante invernos muito frios. Tivemos uma grande quantidade de neve este mês, 22 pessoas morreram numa tempestade de neve enquanto estavam presas nos carros, porque não temos um sistema de aquecimento. E estou apenas a tentar partilhar isto tudo para dizer por que me envolvi no movimento climático, porque para a maioria das pessoas aqui, nos EUA, é como se devêssemos reduzir as nossas emissões de carbono e reduzir as nossas pegadas de carbono e devêssemos comer vegan e pronto. Mas para mim, eu relaciono-me com a morte, a guerra e a pobreza.

O Paquistão é um dos muitos países que há anos mais sofre com as consequências do aquecimento global, causando desastres naturais e humanitários. Quais são os planos do governo para combater as mudanças climáticas? Têm os meios para o fazer?

O meu governo, por muito tempo, tem sido uma ditadura militar, às vezes com presidentes. E o nosso país é muito jovem, tem apenas 76 anos. Não, o meu governo não está a fazer muito. Na verdade, durante muito tempo, trabalhou com os Estados Unidos e perpetuou esta guerra, e no processo, os cidadãos pagaram e morreram. Mas o governo beneficiou do dinheiro. Estamos numa área muito crítica do mundo, geopoliticamente, e temos armas nucleares. E somos o 5º país mais afetado por desastres climáticos. As nossas emissões de CO2, relativamente às emissões globais, é inferior a 1%. Depois de 1,5 graus de aquecimento terrestre, teremos mais de cem milhões de refugiados de carbono. Os outros quatro países mais afetados pela crise climática também estão na mesma região, incluindo Bangladesh, Maldivas e nações insulares. E em termos de geopolítica, à medida que a crise climática piora, à medida que os recursos ficam mais difíceis de encontrar, as tensões políticas e sociais aumentam. Neste momento, a comida é tão cara porque o nosso solo está-se degradando, até a água é demasiado cara agora. Daqui a 30 anos, vamos ter guerras civis por toda a região, porque é como lutar por alimentos básicos e água potável. O nosso governo tem estado a falar sobre plantar árvores enquanto a crise climática é o maior desafio no nosso caminho nos próximos 10 anos. Então, não fazer o suficiente é como um eufemismo, o nosso governo está mesmo a ignorar.

Participaste na COP26, em novembro. Muitos ativistas já não reveem as suas expectativas neste tipo de cimeira. Achas que há representação suficiente, na COP, de ativistas indígenas e de pessoas que vêm de países mais pobres?

Sim. Acho que a diversidade não é o problema nas Nações Unidas. Porque se há um lugar que deve ser diverso é a ONU. Estamos a falar sobre unirmos países do mundo! Acho que o tipo de diversidade é que é o problema, porque dos países mais pobres, as pessoas que vêm à COP são das mais ricas. Do Sul Global, as pessoas que vêm têm alguns dos privilégios brancos e são pessoas brancas dessas nações.

Basta ver a América Latina, por exemplo: a representação de jovens da América Latina na COP26 era predominantemente branca, quando a América Latina é lar de tantas tribos indígenas, de afro-indígenas, de afro-latinos. Mas a representação era maioritariamente da classe alta. Do Paquistão, tínhamos funcionários do governo: tínhamos o Paquistão representado, mas tínhamos representação corrupta. Essas pessoas vieram com uma agenda. E a diferença de riqueza foi incompreensível para mim, porque vir do Sul Global para um país, como o Reino Unido, e pagar o seu voo, a sua própria comida e o seu próprio hotel – o que os ativistas são forçados a fazer – não é o mesmo para diplomatas ou pessoas com dinheiro terem de o fazer. Duzentas rúpias paquistanesas equivalem a uma libra. Se uma pessoa de classe média não é capaz de pagar aluguer no Reino Unido, muito menos uma pessoa pobre é capaz.

Então, eu acho que não é uma questão de etnia, é uma questão de classe e é uma questão de quem vai dizer o certo. O meu governo não está a ser exigente na negociação. O meu governo não está a cumprir o acordo climático de Paris, e o meu governo está a mentir para o órgão internacional. As representações do governo não vão fazer o que é preciso. Serão as pessoas no terreno a fazê-lo. E são eles que se importam em chegar à COP. O México tinha um contingente tão grande de representação, mas também era corrupto, o Paquistão era corrupto, a representação brasileira falava de todas as maravilhas do Brasil, mas ignoravam completamente que estão a incendiar a Amazónia e que estão a assassinar povos indígenas neste preciso momento.

Então é por isso que é importante dar espaço e tempo para os indígenas falarem…

Sim, precisamente. E em termos de MAPA (Pessoas e Áreas Mais Afetadas), acho que o movimento climático jovem tentou obter diversidade, mas acho que também era uma falsa diversidade. Eles fizeram a mesma coisa: trouxeram as pessoas mais privilegiadas e mais ricas daquelas regiões, porque as pessoas mais privilegiadas e mais ricas podem dedicar tempo do seu dia, todos os dias, para trabalhar nesse movimento, enquanto os restantes tem de ir trabalhar, para nos alimentarmos e ter Internet para fazer ligações semanais.

Ser ativista é um privilégio porque significa que tu tens tempo extra, que a maioria das pessoas afetadas pela crise climática, ou pobreza, ou questões de classe, não têm. E há esse tipo de crença no movimento de que, se trabalhares duro, fores a todos as campanhas, protestares e te envolveres em todas as ações digitais, quer dizer que és uma pessoa ideal, porque te preocupas com o clima. Mas se não podes, quer dizer que não te importas e és má pessoas e é como se não estivesses a fazer o suficiente. Mas o que fica de fora da conversa é: para a maioria das pessoas, quando se trata de sobrevivência não se trata de greves escolares, acaba por ser muito mais perigoso e complicado, porque se trata de governos fascistas, armas militares e ameaças militares.

Por isso, fiquei um pouco dececionada, até com os jovens, porque a representação era principalmente da Alemanha, em primeiro lugar. E o Fridays For Future tem muito dinheiro e eles usam-no para trazer pessoas brancas da América Latina; havia pouquíssimos jovens indígenas que vinham do Fridays For Future. Eu mesma estendi a mão e eles disseram “não”. E o tipo de MAPA que existe está a ser criado a partir das pessoas mais privilegiadas dessas diferentes nações. O que eu quero dizer para este artigo é: etnia e diversidade são coisas completamente diferentes.

A figura de Greta Thunberg tem uma representação diferente para os jovens de Portugal e da Europa e para os jovens de outras partes do mundo. Na Europa, a maioria dos ativistas respeita-a enquanto faísca necessária para um movimento maior, que começou em 2019. O que Greta representou para os jovens do teu país?

Eu quero esclarecer. Eu sou do Paquistão, morei lá, mas estudo nos EUA. Portanto, em 2019, eu estava nos EUA. E eu posso falar da minha aldeia, mas não posso falar de todo o movimento, o meu envolvimento é aqui, e não quero falar de um movimento do qual eu não faça parte. Mas posso falar sobre a Greta, porque isso é algo em que penso especialmente, e posso falar sobre ela do ponto de vista dos EUA.

Acho que a justiça climática e o movimento climático são tão antigos quanto a segregação e a escravidão. E acho que os primeiros guerreiros da justiça climática foram indígenas e pessoas negras escravizadas. Digo isto, porque antes mesmo de termos a palavra “comida” nessa qualidade, estas pessoas eram alimentadas com as partes mais nojentas da comida dos seus mestres (o que sobrava). Quando este país foi segregado, a terra foi cortada e dividida para que os negros fossem forçados a viver em zonas perigosas, zonas de desastres climáticos e forçados a beber água suja e a ter comida que não era saudável. Neste momento, no bairro onde moro, temos fast food em todo o lado. É tão barata; o McDonald’s é mais barato do que obter vegetais. E temos uma mercearia num raio de 150 metros.

Posso mostrar-te da minha janela. [Ayisha desliza para o lado no ecrã do computador]. Vês a neve? Neste momento, todo este bairro está coberto de neve. Temos uma mercearia. Isso significa que a maioria das pessoas aqui não terá acesso a leite pelo resto do dia, provavelmente não terá acesso a pão ou feijão ou comida. Porque acabámos de ter uma tempestade de neve e aquela mercearia está fechada, mas o McDonald’s está aberto… provavelmente. E isso é apenas um exemplo de quão antiga, historicamente, é a injustiça climática.

De volta ao movimento neste país, Martin Luther King, quando estava obtendo direitos civis e direitos de voto para os negros, na verdade, foi a um bairro neste país e protestou contra a poluição da água. Angela Davis, uma Pantera Negra, e os Panteras Negras eram e ainda são ambientalistas. Porque as pessoas mais pobres e negras deste país são forçadas a alimentar-se de forma não saudável, o que leva a cancro, deficiências, depressão. É feito propositadamente para que a sociedade, em algumas partes deste país, não possa florescer, não possa ir à escola. E mesmo os direitos das mulheres neste país, muitas das mulheres que pediam o direito ao voto, que pediam direitos ao aborto, eram ambientalistas também, porque também reconhecem que esta nação propositadamente coloca fronteiras e barrica as pessoas. E obriga-as a viver um estilo de vida tão duro para que não tenham acesso a comida fresca, água fresca, ar puro. Nós também, neste país, abrigamos centenas de milhares de tribos indígenas, desde antes do imperialismo. Hoje, existem ainda algumas nações indígenas. Uma delas é a nação Navaho. Durante a pandemia, a maioria das pessoas que morreram eram dessa nação indígena. E, para colocar em perspetiva, se a água é um dólar no resto dos EUA, é cinco dólares na nação Navaho. Nas comunidades indígenas, a comida é tão cara, a água é tão cara, que é como se eles fossem mortos quase de propósito, só porque são pobres. Ser pobre é como um crime, e apenas por se ter uma cor de pele diferente, pagas por isso, pelo resto da vida.

A figura da Greta parece-te distante dessa interseção de opressões?

A Greta é minha amiga, converso com ela muitas vezes. Quero deixar isso bem estabelecido antes de criticar. Acho que a resposta que a Greta obteve dos jovens do Norte Global e dos media diz mais sobre o próprio Norte Global e sobre os media do que sobre a Greta. É muito doloroso para mim que no Norte Global, desde 2019, tenha sido preciso uma menina loira de olhos azuis para que o Ocidente se importasse [com o clima]. E eu digo isto porque, como já te disse, o meu povo está a morrer há 30 anos, por petróleo. Mas antes disso, se estudares História e imperialismo, refugiados, secas, desertificação, furacões, tsunamis, já afetavam o Sul Global, e as nossas crianças já estavam a morrer, estão a morrer. E ninguém se importava com o seu futuro, ninguém se importava com a sua inocência. Pelo que me tenho apercebido, nós não somos considerados humanos, porque se a nossa dor fosse considerada humana, o Ocidente não deixaria isto continuar. Em 2015, quando uma criança síria chegou à costa grega houve manchetes em todo o lado. Ele era um bebé, mas o seu futuro, a sua inocência, não deram início a um movimento de massa. E a Síria também é seriamente afetada pela crise climática.

É estranho para mim, que o Ocidente tenha tido que ver uma criança que se parece com eles, que parece valer a pena proteger, que parece valer a pena salvar, para o movimento climático se tornar o que é hoje. A Greta para mim não representa um quadro de inspiração: ela realmente mostra-me as falhas do Norte Global, mostra-me como os países do Norte Global estão a fazer tudo o que podem para se tornarem mais conservadores. No Reino Unido, nos EUA, na França, na China, na Alemanha, os governos estão a fechar as suas fronteiras, proibindo a entrada de refugiados, estão a dificultar muito a cidadania e é porque sabem que a crise climática está a chegar. Eles sabem que haverá um bilião de refugiados nos próximos 30 anos e eles não querem deixá-los entrar. Então, estão a preparar-se agora. Eu acho que é mais ou menos isto que está a acontecer em termos de juventude. Existe um tipo específico de juventude e futuro que o Norte Global quer proteger, que toca os seus corações, que os torna emocionais. Quando isso acontece, não é pelas crianças que se parecem comigo, e não é pelas crianças que são mais escuras do que eu, elas não são dignas de proteção.

Os governos costumam dissociar a agenda económica da agenda climática, o que pode afetar o debate e interesse público sobre as mudanças climáticas. As pessoas não parecem estar completamente cientes de quanto as podem afetar. O que falta na comunicação dos ativistas, cientistas e governos para que as pessoas adiram ao assunto? Achas que os media estão a transmitir a urgência de combater a crise climática?

Os media não estão a mostrar isso de forma a que as pessoas sejam ativadas. A minha avó, por exemplo, ela não sabia ler, era analfabeta. Ela não entendia o carbono e não entendia o que as emissões significavam. Mas ela sabia que a terra e as suas colheitas estavam a morrer e os seus animais estavam a sofrer. E acho que o ângulo que os media precisam de abordar é o da narrativa e do coração. E não é isso que estão a fazer, principalmente no Norte. Estamos a falar de coisas abstratas: as pessoas não se conseguem relacionar a “CO2”, não conseguem relacionar-se a “qualidade do ar” e a “oxigénio”. O que os media precisam de mostrar é o que acontece quando parte do mundo não tem oxigénio suficiente, o que acontece quando há tanto calor numa região que as crianças que vão para a escola começam a morrer.

Outra coisa que eu acho que os media poderiam fazer melhor é não centralizar os EUA ou o Norte Global e comparar todo os outros ao Norte Global. O que quero dizer é que quando as histórias são contadas, o Norte Global é o Centro e o restante é o Outro: isto está a acontecer nesta parte do mundo, isto está a acontecer nesta, e eles precisam de fazer x, y e z para evitar que tal venha até nós. Este não é o ângulo que devemos tomar. Devemos tomar-nos enquanto coletivo que está a ser afetado para que a outra parte do mundo seja também um centro. Os países da Terra que estão a ser afetados pela crise climática são o centro agora, não o exterior.

E quanto a questões geopolíticas, relacionadas à classe, nomeiem as indústrias de combustíveis fósseis! Eu não consigo sublinhar isto o suficiente: as corporações e as pessoas que estão a matar o planeta têm nomes e endereços e incomoda-me que, como movimento, sejamos tão tímidos em dizer Exon, Shell, Chevron, BP. E o Fridays for Future diz “no naming, no shaming“… bem, como é que se vai alcançar qualquer justiça social se não se pode nomear as empresas, como se vai dizer a verdade quando isso afinal não significa nada? E tu podes fazer um governo declarar emergência climática, eles fá-lo-ão rapidamente, mas fá-lo-ão porque não significa nada. Precisamos de ter demandas atuáveis, tangíveis. E isso começa por anunciar as empresas de petróleo e os CEOs que estão no poder. Por que todos sabem o nome de Jeff Bezos, mas alguém sabe quem é o CEO da Exon? É de propósito. Eles estão a colocar milhões de dólares, e a desenvolver relações públicas, para que não saibamos quem está a fazer isto. E nós estamos a tomar partido deles, estamos a ser influenciados por isso. Precisamos de começar a chamá-los como se fôssemos os milhões opostos. Elon Musk recebe muito ódio, mas o seu nome, os nomes das companhias de petróleo e os seus CEO´s devem ficar tão populares quanto Jeff Bezos e Elon Musk.

Há pouco mencionaste as questões da alimentação. No teu Instagram está um texto que escreveste intitulado: Eu sou Ambientalista e Não me Importa Se és Vegan. Em Portugal, os substitutos da carne, a dita comida vegan é considera muito cara. O que querias dizer no teu texto?

Esse post gerou muita tensão. E eu meio que queria puxar pelos clicks de propósito. Eu quis dizer “eu não me importo se és vegan”, porque ser vegan não é um selo que define um ambientalista e vice-versa. Quando entro numa sala cheia de pessoas que se preocupam com a terra, o planeta, a natureza e as pessoas, não estou à espera que os outros provem que se importam o suficiente. Eu acho que é algo que eu vejo e que é tão superficial… as pessoas gostam de julgar os outros por serem vegan e reciclarem e fazerem isto e aquilo. Mas eles não têm em conta tudo o que faz de uma pessoa, uma pessoa.

Na minha comunidade, somos um povo tribal e a nossa relação com a carne e a comida é muito diferente do que vejo aqui. Aqui, vejo carne embalada e armazenada em plástico. De onde venho, de povos tribais, agricultores e povos nómadas, criamos o nosso gado, cuidamos deles, alimentamo-los. Eles fazem parte da nossa família. E quando os usamos para comer: primeiro, usamos tudo, não desperdiçamos nada; segundo, é por necessidade; terceiro, é de vez em quando, porque muitos de nós somos muito pobres, o nosso gado dá leite, dá queijo, e vendemo-los para comer. E isso é muito diferente do Norte Global, em que as pessoas estão desconectadas da sua comida, as pessoas não veem a comida a ser processada. Começa só quando vais ao supermercado, colocas no cesto e depois cozinhas. Mas não vês toda a energia, a vida, que se coloca na criação desse animal. Não vês todo o trabalho necessário para colocar os vegetais que tens na mercearia no teu prato. Isto não é assim para as comunidades nómadas e indígenas. Tudo o que caçamos, tudo o que plantamos, ou cultivamos, cultivamos com as nossas próprias mãos, é uma relação muito diferente. Eu acho que isso precisa de ser reconhecido, porque vejo o movimento ambientalista tão crítico por tanto tempo… Encontrei algumas das pessoas mais zangadas num movimento que deveria ser sobre cuidar dos outros. E por isso é que fiz esse post. Para mim não se trata de ser vegan ou não, para mim é sobre reconhecer toda a história que se passa na comida que se come, na água que se consome, nas roupas que se compra. Porque por trás de tudo isso há humanos, há anos de vida e energia que foram investidos nisso.

Por fim, como movimento, não podemos entrar na justiça climática se não criticarmos o capitalismo. E o veganismo, nos EUA e no Norte Global, opera sob a estrutura do capitalismo. Dizes que a comida vegan é cara, há uma razão para isso: as empresas que produzem leite, produzem também produtos vegan. A Nestlé faz muitos produtos vegan. A Nestlé também é uma das maiores poluidoras de plástico do mundo. Muitos dos substitutos de carne que temos também não são de origem ética; muito do leite de aveia, amêndoa e soja não tem em conta o trabalho que foi necessário para fazê-los. E muitas vezes as pessoas que estão a fazê-los são migrantes e estão a receber salários miseráveis. Neste país, há a Whole Foods, que é um grande supermercado, da propriedade da mesma pessoa que possui a Amazon, o Jeff Bezos. A Whole Foods tem alguns dos alimentos de melhor qualidade, mas os seus funcionários são geralmente migrantes mexicanos e trabalham na chuva, na neve e no calor para trazer todos estes produtos para as nossas lojas. As pessoas que os compram acham que estão a fazer maravilhas por limitar a pegada de carbono, mas os direitos dos trabalhadores, o componente humano, são completamente desconsiderados. No processo de mudar o mundo para que todos tenham comida e água limpa, também temos que reconhecer os trabalhadores e as pessoas que produzem tudo isso. O sistema económico que temos corta isso completamente.

As pessoas podem agir agora – ainda – para reduzir ou para parar alguns impactos das mudanças climáticas. As ações individuais são tão importantes quanto o movimento coletivo?

Eu acho que as ações individuais são importantes com o movimento coletivo. Eu mesma, todos os anos, faço resoluções, por exemplo, e muitas delas são sobre limitar meu consumo. Acho que tem que ser uma escolha que alcanças para ajudar o meio ambiente, mas não deve ser uma escolha que alcanças para os outros. Em Nova York, eu achei o movimento vegan zangado e crítico ao invés de gentil, e investimos tanto na proteção dos animais que esse movimento, aqui – não vou falar por nenhum outro país do mundo – desconsidera completamente os trabalhadores, negros, por exemplo, que fazem a sua comida.

Em termos de ação individual, acho que não pode ser apenas ação individual, ou nos media, apenas priorizar personalidades e celebridades em oposição a um coletivo. E por coletivo não pode ser só a juventude, precisamos de envolver os trabalhadores, precisamos de envolver o movimento trabalhista, precisamos de envolver as pessoas que já faziam este trabalho antes mesmo de nascermos. Isso significa um movimento de justiça racial. Justiça racial é justiça climática e é justiça social. Porque quando protegemos os mais vulneráveis, podemos proteger todos.

Além disso, eu acho que nosso movimento tem uma cultura de se exibir, de muita conversa, como eu, que aqui tenho estado a falar contigo por uma hora. Mas não de ação. É mais valioso, na minha opinião quando vejo alguém que admiro a escolher consumir menos ou a prejudicar menos o meio ambiente, do que um dia fazer uma grande palestra sobre isso. E acho que precisamos de ser um movimento mais orientado para a ação. Porque a juventude vai acabar, todos nós vamos envelhecendo, alguns de nós começaram aos 16 anos e agora têm 20. A juventude é muito passageira; precisamos de ter algo que dure. As estruturas do nosso movimento não são fortes, são muito frágeis. E precisamos de ser capazes de passar o nosso movimento para a geração mais jovem, que virá depois de nós, porque não estamos a liderar pelo exemplo, estamos a liderar pelo discurso e capas de revistas e fama. É preciso liderar pela ação.