Ubuntu, um sonho lúcido

'Crónicas da Bastilha' são uma coleção de histórias e reflexões sobre França no caminho para as eleições presidenciais de abril. Nesta segunda missiva, a nossa cronista escreve sobre uma ida ao museu, imaginários decoloniais e cafés excessivamente caros. De uma Paris unida na solidariedade à Ucrânia, mas dividida no acolhimento de refugiados.

Paris, 27 de fevereiro de 2022

Faz frio em Paris e escurece cedo. É deprimente. As pessoas andam com pressa, têm sempre algum sítio para ir e algum sítio a que chegar. Os cafés nas esquinas são os mais caros (2.50 euros!), mas é onde muitas pessoas se sentam para beber um café e aproveitar um pouco de calor. No Inverno, passa-se mal, e as pessoas caminham com passos largos e indiferentes pelos sem-abrigo que se agasalham nos cantos da cidade.

Não é de espantar, também, que haja na cidade das luzes um gosto particular pela cultura. E por vários tipos de cultura. Desde estudantes que veem em conjunto dois filmes por dia na faculdade, até quem dança hip hop à porta do Centre Pompidou.

Ao pé da minha faculdade [Sorbonne Nouvelle] existe uma pequena livraria, que se chama “Présence Africaine”, cheia de publicações que mostram a abundância do pensamento no continente e nas suas diásporas: literatura e as suas críticas, linguística, história, sociologia, antropologia, filosofia, teologia, política, atualidade, literatura infantil, críticas, DVDs, etc.

A revista aclamada com o mesmo nome surgiu em 1947, numa Paris ainda cheia do entusiasmo do grande despertar da Libertação, mas sem recursos para falar, a ideia de fundar uma revisão mensal, sem ter os meios materiais necessários era de certo modo um desafio.

A ideia de Présence Africaine, o projeto de uma revisão aberta à colaboração de todos os homens de boa vontade, suscetível de ajudar a definir a sua originalidade e acelerar a sua inserção no mundo moderno, esta ideia chamou a atenção dos mais lúcidos, os mais atentos aos movimentos de pensamento resultantes da grande crise de 1939-1945. Estes incluíam André Gide, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Emmanuel Mounier e Michel Leiris; Alioune Diop reuniu estes escritores e pensadores, bem como personalidades como Richard Wright e Léopold Sédar Senghor…

Homenagem a Sarah Maldoror, cineasta africanista com ligações a Portugal, na exposição ‘Ubuntu, um sonho lúcido’ no Palais de Tokyo. Fotografia: Andreia Galvão

Na semana passada, consegui apanhar uma exposição no Palais de Tokyo, o maior centro de arte da Europa, chamada “Ubuntu, um sonho lúcido”, um espaço ainda não convidado na nossa imaginação e conhecimento.

A exposição pretende dar testemunho destas dinâmicas de recomposição do mundo povoado por sonhos lúcidos e reúne as propostas de cerca de vinte artistas cujas obras ressoam com a filosofia Ubuntu e procuram abordar este pensamento de ação e relação como um recurso, um espaço de invenção, ficção ou mediação do mundo real. Contou com a presença de artistas como Lungiswa Gqunta, Frances Goodman, Kudzanai-Violet Hwami, Richard Kennedy, Grada Kilomba, Turiya Magadlela.

Com estes espaços contrastam os grandes monumentos que perpassam toda a cidade, da Bastilha ao Panteão Nacional, como cenário de fundo para quem aqui vive ou passa o dia. Passar o dia pelos preços inconcebíveis quer de habitação, quer do comércio que deslocam os e as trabalhadoras, os e as estudantes, para a periferia.

Eu, por exemplo, demoro quarenta minutos a chegar à minha faculdade em Censier, num puzzle entre metro e comboios. Quando os trabalhadores dessas infraestruturas (RATP) fizeram greve, por exemplo, na semana passada, paralisaram a cidade ao bloquear várias linhas. Prometem repetir o procedimento dia 25 de março, como forma de mostrar a força sindical e negociar as condições de trabalho.

As discotecas são pequenos espaços de liberdade na cidade. Desde as mais mainstream às mais recônditas, por onde passam os mesmos circuitos culturais que passam em Berlim e tantas outras cidades europeias. O “Le Chinois” é uma pequena discoteca em Croix de Chavaux, onde vivem eletrónica, rock, punk e músicas do mundo – e as suas comunidades.

Manifestações pela Ucrânia

Nos últimos dias, várias manifestações têm tomado lugar na capital, tal como noutras regiões do país. Vários cidadãos russos têm levantado cartazes com as expressões “Russians against war” e “This war is not in my name”. É importante aproveitar este momento para pensar sobre o quão danosa a guerra é, para as pessoas e para o planeta, e como a solidariedade deve ser estendida a todas as vítimas do imperialismo global. E em como nos devemos opor a ideias (tão populares num país como França) da Europa Fortaleza.

Jovens russos em manifestação de apoio à Ucrânia em Paris, 26 fevereiro. Fotografia: Andreia Galvão

Termino deixando um poema de um amigo que me veio visitar:

Paris,

Cidade das várias faces,

escrevo-te uma ode na qual não te elogio nem te insulto.

És feita de dias cinzentos que nos consomem

Que segredos escondem os cadáveres sob o teu chão?

És cemitérios das gentes, de uma antiga revolução,

Por ti pouco mais sinto que uma mísera confusão,

Perdido entre o encontro dos teus ventos,

e nos túneis mórbidos dos metros e dos assentos,

És tão bela que até magoa,

És horrenda, com uma cor que destoa.”

Guilherme Machado

Imagem de destaque: Bruno Cabral