Marcelo Rocha: “Quando a gente nasce numa comunidade negra no Brasil, o ativismo é uma forma de sobrevivência”

Marcelo Rocha vive em São Paulo e faz do ativismo trabalho a tempo inteiro. O jovem de 24 anos explica como o racismo se interliga com a crise climática e como ambos se cruzam num movimento intersecional.

A quinta edição dos Encontros Internacionais Ecossocialistas, organizada por coletivos e organizações portugueses e internacionais, realizou-se entre os dias 21 e 23 de janeiro, em Lisboa. Ativistas internacionais reuniram-se na capital portuguesa para uma ronda de conferências sobre soluções de combate à crise climática, com o ecossocialismo no centro da mesa. A Sentinela lança, agora, uma série de entrevistas a alguns dos ativistas presentes.

Marcelo Rocha, 24 anos, vive em São Paulo, no Brasil. Nos Encontros Ecossocialistas, falou sobre o tema We Are the Majority Building an Intersectional Global Movement. Tem assistido à desflorestação crescente da Floresta da Amazónia durante anos, que tem vindo a destruir o ecossistema e a pôr em causa a vida das comunidades indígenas. Desde que Jair Bolsonaro foi eleito, o desmatamento da Amazónia acelerou e os conflitos territoriais aumentaram. O presidente do Brasil chegou a ser acusado de crimes contra a humanidade, no Tribunal Penal Internacional (TPI). Para Marcelo, ser ativista sempre esteve no seu ADN.

És diretor numa ONG (Instituto Ayika), estás no Greenpeace Brasil, participas em eventos, já falaste na TedXSãoPaulo. Ser ativista, para ti, é um trabalho a tempo inteiro. De onde parte o teu ativismo?

Eu acho que partiu de toda uma vida. Quando a gente nasce na periferia, quando a gente nasce numa comunidade negra no Brasil, o ativismo é uma forma de sobrevivência. Ele se torna trabalho a tempo inteiro porque é uma forma de sobrevivência sua, e uma forma de manter a sua comunidade viva. O ativismo para mim partiu muito desse lugar, de como sobreviver, coletivamente, junto com o meu povo. E no meio há tantas questões. Da mesma forma que o ativismo nasce lá atrás – pensando a questão da violência, pensando a questão da educação, e de racismo – ele vai-se desdobrando, entendendo que não só estas coisas atingem a gente enquanto comunidade, mas veem-se noutras coisas: e nisso vão surgindo as questões junto com o clima, vão surgindo as questões junto com o meio ambiente, tantas outras coisas, que vão se correlacionando com as pautas raciais.

Como é que a crise climática se interliga com o racismo?

Quando a gente fala sobre racismo, a gente fala sobre a tendência de superioridade partindo de uma raça que explora a outra. E a crise climática não é nada mais que o resultado de um processo de exploração durante muito tempo. Então, a gente sabe o quanto o racismo foi manutenção e criação da exploração do Sul Global, da exploração dos territórios indígenas, da exploração dos territórios em África. E isso manteve a estrutura, hoje, que o Norte Global tem: a maioria das condições de opressão não criam só essa manutenção de poder estratégico, referente ao posicionamento do mundo, mas também destruíram o nosso planeta. Então, a cultura de explorar, não somente a natureza, mas tudo o que se envolve enquanto natureza – as pessoas, as mulheres, as pessoas racializadas – isso tornou a crise climática possível, isso acelerou as mudanças climáticas.

Eu acredito que, hoje, o que a gente chama de racismo climático, não é nada mais do que a continuação desse processo. Então, esse processo continua na forma em que, hoje, a gente pensa sobre soluções para o clima, a gente pensa como alterar e contruir uma sociedade, e toda a vez isso vai bater diretamente num ponto que é: quem são as pessoas que fazem essas soluções? A gente viveu milhares de anos para voltar à mesma questão em 2022: quem é que deve viver e quem é que deve morrer? Porque a crise climática, ela está aí, ela está acontecendo. Mas para quem é que são pensadas as soluções? Como é que a gente envolve as pessoas? Quem são as pessoas que têm acesso à sobrevivência da crise climática?

Cá em Portugal, tal como em outros países do Norte Global, o movimento Fridays For Future reconhece uma responsabilização histórica da crise climática por parte do Norte e os maiores impactos que se refletem no Sul Global, nas pessoas na linha da frente. Qual a importância de referir esta responsabilidade?

Eu acho que não é questão de importância. O que a gente tem chamado hoje de MAPA (Most Affected People and Areas) é um termo muito importante para a gente pensar não só a crise climática, mas pensar ela a longo prazo. O que é que a gente pode fazer para manter as pessoas vivas? Porque a crise climática não é só sobre a natureza, não é só sobre colocar etiqueta na árvore e vender mercado de carbono. Ela é sobre pessoas, sobre vidas. E acho que, boa parte das vezes, o que o Sul Global tem muito a dizer é sobre esse lugar. De entender que a gente não está falando só sobre um planeta, nesse planeta moram pessoas. E quem são essas pessoas mais afetadas? A gente está discutindo se vai ter vida em 2030, e tem pessoas em comunidades morrendo hoje, afetadas pela crise climática. Então, porque a gente só olha para 2030? Porque em 2030 isso pode já ter destruído tanto o Sul Global, mas começa a atingir mais o Norte Global, que não é tão afetado pela crise climática? Então, quem é que a gente está esperando que seja afetado pela crise climática para poder agir?

Inclusive, tem um poeta brasileiro, o Paulo Leminski, que fala sobre isso. Ele fala: “eu vejo as pessoas se esquecendo sobre esse lugar de humanidade, de humanizar o outro”. Então, ele só sente a dor quando a dor é sentida no seu próprio corpo, ele não consegue sentir a dor do outro. E eu acho que, às vezes, eu sinto isso sobre as mudanças climáticas. O quanto o Sul Global já está vivendo consequências ainda é uma questão que não sensibiliza o Norte Global, não sensibiliza a maioria das mobilizações, não sensibiliza aqueles que têm o poder e que não são tão afetados pela mudança climática. Ainda assim a gente pensa soluções para 2030, para 2050. Ainda assim os nossos prazos são muito longos, porque ainda não é relevante o que as pessoas do Sul Global têm vivido, o que as pessoas mais afetadas têm vivido hoje com a crise climática.

A liderança jovem tem sido cada vez mais importante para colocar na agenda política internacional o combate à crise climática. O voto conta tanto como a mobilização de rua?

Eu acho que sim. Dentro de uma democracia, os poderes se complementam. O poder do voto é um poder também que foi conquistado através da rua. Então, o sufrágio universal é um coisa muito importante, porque faz com que a gente tenha esse lugar de representação a quem cobrar, porque muito do que a gente está falando é sobre isso. Quem são essas lideranças e quem são essas pessoas que estão no poder? E como é que a gente consegue que esse poder possa ser compartilhado, possa ser realmente democrático, e não que a gente caminhe para o autoritarismo? O que eu vejo hoje no mundo inteiro é exatamente o avanço desse autoritarismo, com as eleições da extrema-direita, com o avanço do conservadorismo. Com o avanço desse lugar que causa incómodo às elites: cada vez mais o avanço das mulheres, o avanço das pessoas racializadas, o avanço das pautas ambientais, climáticas… isso causa desconforto àqueles que vivem de explorar as terras. Então, como a gente consegue reverter isso no voto, que sozinho também não é suficiente? O voto tem de estar atrelado com a nossa participação ativa nos espaços democráticos, com a nossa participação ativa na ruas, nos espaços de tomada de decisão e nos espaços de consulta pública.

Um estudo recente revelou que a floresta amazónica está próxima de atingir um ponto de não retorno, no qual poderá começar a emitir mais dióxido de carbono para a atmosfera do que aquele que absorve. E a extração de madeira destrói as comunidades indígenas, pondo o seu modo de vida em sério risco. Porque é que é importante o mundo ouvir as histórias de ativistas indígenas, como a de Txai Suruí?

Eu acho que as vozes indígenas são absolutamente importantes, porque elas são as grandes guardiãs da floresta, os grandes guardiães da terra. E não só indígenas, mas as vozes quilombolas, que são as vozes que estão nos territórios. Eu não posso falar muito sobre a causa indígena, porque hoje eu apoio, mas eu não sou uma pessoa indígena. Eu acho que as pessoas indígenas têm as suas próprias vozes e conseguem transmitir, expandir e trazer um pouco mais sobre as suas questões. Mas eu posso falar sobre a comunidade quilombola, que são comunidades, também guardiãs da floresta, de pessoas negras no Brasil, que foram pessoas sequestradas em África no processo de escravização. E que conseguiram resistir à escravidão no Brasil conquistando territórios e mantendo uma cultura de cuidar da natureza, de cuidar da floresta, de viver em floresta. Acho que hoje a população que vive dentro das comunidades quilombolas no Brasil é muito importante. Eles também têm ainda grandes problemas com os governos de conseguir a demarcação dos seus territórios. E ainda sentem, depois de quase 800 anos que o povo vive nas suas terras, que não conseguem direito ao seu território. Eu ouvi essas vozes, porque são vozes que estão ali resistindo, mantendo a floresta de pé, mantendo a estrutura de cada vez mais salvar o nosso mundo e cuidar do nosso planeta.

Estiveste presente na COP26, em novembro. Muitos ativistas já não revêm as suas expetativas nestas cimeiras, sobretudo porque, segundo a própria ONU, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores a 2,7 graus celsius, ultrapassando os 1,5 graus celsius do Acordo de Paris (2015). Achas que a COP26 criou soluções importantes?

Eu acho que a COP foi por muito tempo um espaço do Norte Global, fazendo a manutenção daquilo que já acontecia. Acho que agora está abrindo um pequeno espaço para que a gente possa levar a sociedade civil e que a sociedade civil possa propor também. Acho que isso é um passo importante dentro desses espaços de decisão: que a sociedade civil tenha voz e possa falar. Que a Txai Suruí tenha aberto a COP26, foi uma coisa incrível, porque você consegue levar outras vozes e criar outras perspetivas, entendendo que é um começo. Da mesma forma, eu acho que a gente não sai com grandes decisões, mas a gente sai com uma pressão popular maior. Eu acho que ter esse espaço onde a gente possa fazer essa cobrança direta, são espaços relevantes. Não são espaços que nos cabem, a gente sabe disso, mas são espaços em que a gente cabe estar lá para cobrar e conseguir demandar essas lideranças que são eleitas pelos seus povos. Então, eu acredito muito que a gente, enquanto sociedade civil, tenha ocupado cada vez mais esses espaços e são espaços que a gente tem de potencializar enquanto sociedade civil para que as vozes sejam cada vez mais escutadas, para que a gente não seja apenas espetadores de negociações que terminam dessa forma. Mas que a gente possa também propor coisas, possa cobrar e expandir essas coisas que a gente tem vindo a fazer dentro desses espaços como a COP26.

Os governos costumam dissociar a agenda política da agenda climática, o que afeta o debate e o interesse público sobre a crise climática e até a forma das pessoas encararem o assunto. O que falta nesta comunicação intermediária, tanto dos ativistas, como dos governos e dos mass media, para fazer entender as pessoas que a crise climática está cá e “afeta-me a mim”?

Olha, essa é a pergunta do um milhão de dólares! [risos] Acho que um dos maiores problemas que a gente tem quando fala sobre clima é a questão da linguagem. Eu acho que a gente poucas vezes consegue parar para ouvir as pessoas, e a gente quer ensinar muita coisa. E se você não sabe que língua que o outro fala, qual a linguagem do outro, você não vai saber como abordá-lo, você não vai saber como conversar com ele. E eu acho que isso é uma das grandes questões sobre clima. A pauta climática escuta pouco as pessoas e quer propor tudo. Então a ciência, sim é muito importante, mas não é neutra. Eu discordo que a ciência é neutra. A ciência propõe para quem financia. Ela resolva problema de quem financia.

Eu acho que a gente vive um momento em que, pouco a pouco, a gente tem conquistado espaços no meio académico para propor soluções que fogem das soluções que são para algumas pessoas. A mesma ciência que cria um foguete para Jeff Bezos e fica dez minutos no espaço é a ciência que poderia resolver metade do problema que a gente tem sobre crise climática. Mas onde está o dinheiro? Para que é que serve, a quem serve? Então, eu acho que isso é muito importante, a gente discutir essa não neutralidade da ciência. E ela faz até difícil comunicar algumas coisas. As pessoas não sabem o que estão vivendo, o que estão passando, porque existe uma dificuldade de comunicar com elas. Porque quando um bilionário como o Bezos chega e fala assim “olha eu quero isso, isso e isso” há resolução, porque tem dinheiro para pagar.

Mas a quem interessa as pessoas pobres sobreviverem? A quem interessa que as pessoas consigam ter acesso a conhecimento e consigam ter acesso a discussões como essa? Porque se hoje, pouca parte da sociedade sabe sobre o tema e está nas ruas, está nas greves, está na COP, imagina quando isso se tornar uma pauta popular! Então, isso é mais do que uma consequência: é um projeto. Não distribuir informação, não dar acesso a ciência, não dar acesso a educação de qualidade, ter essa ciência muito mais aplicada a resolver problemas segundo os governos, segundo as agências nacionais, do que para as pessoas, literalmente para distribuir esse conhecimento, para mim isso não é uma consequência, é um projeto, que faz com que cada vez mais as pessoas se distanciem do espaço académico, do espaço de criação de soluções para si mesmas. E mantém uma elite intelectual sobre o tema.

Tocaste numa questão importante da educação. Em Portugal, muitos ativistas e até alguns professores defendem que as escolas não têm educação ambiental/climática suficiente. Isso acontece no Brasil também?

Claro, sim. Eu acho que a gente tem vivido inclusive um momento muito sombrio na educação brasileira. A falta dessa educação no meio de uma pandemia causa que as pessoas que já tinham dificuldades em ter acesso à educação, elas entram em mais um momento sensível, que é: nem todo o mundo tem acesso à internet. No meio de uma pandemia, a gente ficou sem acesso à educação por dois anos, no meio do período escolar. Hoje, a gente vive num país em que [só] 6% da população tem acesso a internet banda larga, num país continental, do tamanho do Brasil. Então, a gente sabe que, se tem um problema na educação brasileira, agora a gente tem um grande problema para resolver nos próximos anos. Entendendo que tem novas variantes acontecendo, tem várias coisas ao mesmo tempo acontecendo no Brasil. E como solucionar isso? Não tenho respostas. Mas eu acho que parte do caminho é buscar equidade social. Não tem como resolver esses problemas se a gente não suprir a fome das pessoas, se a gente não suprir a educação base. Porque se não, a gente vai manter o mesmo processo de casta, manter o mesmo processo de acesso a uns e não acesso a outros. Então, eu acho que parte da resolução que a gente tem proposto, parte muito desse lugar de entender o que é esse coletivo, o que é a comunidade, como a gente fortalece o mundo que está ali vivendo o mesmo processo.

E achas que os mass media conseguiriam ter um papel mais importante na divulgação e suscitação de interesse público sobre o tema?

É, têm um papel essencial, que é divulgar…

Achas que fazem o suficiente?

Não, não fazem. Mas, como eu disse, eu não acredito em consequência, eu acho que é muito projeto: manter uma cultura de entretenimento, que não fala. Hoje, a gente tem conseguido um pouco dialogar com a grande mídia no Brasil, para trazer alguns temas relevantes. Então é uma mídia que já fala sobre questões raciais, já fala sobre género, já fala sobre alguns assuntos. As mudanças climáticas é muito difícil. Mas também acho que é uma trajetória. A gente tem de caminhar passo por passo entendendo que a gente vive em emergência. Acho que isso é uma missão muito importante para os próximos tempos. A gente tem de expandir cada vez mais essa pauta e levar isso para vários lugares diferentes.

As pessoas ainda podem agir para parar ou minimizar alguns efeitos das alterações climáticas. As ações individuais são tão importantes como o movimento coletivo?

Acho que sim. Acho que a gente não pode culpabilizar indivíduos por uma questão coletiva. Mas acho que existe uma importância muito grande nessa consciência de um a um. É um tema muito sensível, é um tema que não passa diretamente apenas pelas questões de um indivíduo ou de outro, mas é uma questão que passa por toda a sociedade. Então, movimentar coletivamente produz soluções muito melhores do que movimentar sozinho. Mas as questões individuais também reduzem e multiplicam. Quando eu reduzo a minha pegada de carbono eu incentivo o outro que incentiva o outro. E isso vai-se multiplicando. Nós somos seres que vivem em comunidades, então qualquer indivíduo, de qualquer forma, vai influenciar o outro. As ações individuais são muito importantes porque elas formam o coletivo também.