Presidente de quem? No caminho para as eleições em França, discussões sobre imigração

A menos de duas semanas da primeira volta das eleições presidenciais, a vitória, que se adivinhava disputada, passou a ser tomada como garantida. A Guerra na Ucrânia atirou a direita francesa para os braços de Macron, o estadista, que não recusou o convite. Num tempo em que a imigração é pauta fundamental, qual a visão dos candidatos ao Palácio do Eliseu?

Aproximam-se as eleições. Sentimo-las cada vez mais eminentes, à medida que os rostos, as marchas e as iniciativas dos candidatos se tornam cada vez mais presentes no espaço público. As notícias bombardeiam os cidadãos com as declarações e as controvérsias em volta de quem disputa o cargo neste momento ocupado por Emmanuel Macron. A primeira meta cruza-se já no dia 10 de abril, data da primeira volta, com a segunda marcada para 24.

Por onde quer que se olhe, as ruas estão cobertas com cartazes sobre os candidatos, apelando às suas reuniões, às suas iniciativas. As próprias aulas da faculdade viram-se para o assunto mais relevante da atualidade do país: que programa para França até 2027?

Como filha de imigrantes, o que se propõe no campo da imigração importa-me, pessoalmente, bastante. Surpreende-me o quão banalizadas se tornaram as propostas de pessoas como Éric Zemmour ou Marine Le Pen, que propõem a política de “imigração zero” para França e que se preocupam com “a grande substituição dos cidadãos franceses”. Na verdade, num dos primeiros dias em que cheguei vi uma mobilização de poucas dezenas de pessoas a reagir às políticas racistas, que não eram poucas. Mas uma mobilização como tantas outras que marcam o dia-a-dia das convulsões parisienses, depois das quais a vida simplesmente continua.

Valérie Pécresse, uma candidata do que se chama aqui a direita moderada, propõe outro programa para a imigração, no sentido de moderar a radicalidade destes candidatos. Quer uma imigração seletiva, com teto máximo de pessoas por país, profissão e por ano. Para o conseguir, quer uma mudança constitucional, de modo a cristalizar esta proposta. Parece-me estranho como possa manter esta designação de “moderada”, quando a lógica por detrás destas propostas é precisamente a mesma: a de manter uma “Europa-fortaleza”, onde só os privilegiados cidadãos do mundo têm direito a entrar, esquecendo quem precisa de asilo e quem precisa de refúgio.

O próprio Presidente Emmanuel Macron mantém uma posição ambígua sobre este tema, querendo, por um lado, endurecer as políticas de deportação e, por outro, repensar a lógica republicana de receção aos imigrantes. Opõe-se à “França de braços abertos” proposta, por exemplo, por candidatos como Jean-Luc Mélenchon.

Nas televisões e nas ruas, é visível o agudizar da tensão racial, especialmente no que toca à intervenção policial. Relatos sobre abusos e violência circulam frequentemente nos noticiários e, no dia-a-dia, sente-se a autoridade redobrada de uma polícia mais equipada, mais armada, sobre a qual os manifestantes olham, também com maior vigilância.

Os candidatos têm-se posicionado, igualmente, sobre esse tema. Enquanto pessoas como Yannick Jadot pretendem um programa de reestruturação das forças policiais para policiamento de proximidade às comunidades, Pécresse quer modernizar os equipamentos da polícia (de modo a poder, por exemplo, haver drones durante as manifestações) e aumentar as verbas públicas para este setor.

O que está em jogo são várias Franças diferentes. Há um grande debate, que se tornou aceso durante a governação de Nicolas Sarkozy, sublimado no nosso quotidiano, em todo o lado: numa era de globalização e migração, a escolha do próximo presidente está ligada ao significado da nacionalidade.

O candidato centrista Emmanuel Macron e a candidata ultranacionalista Marine Le Pen têm pontos de vista opostos sobre o que significa ser francês. Contestam, por exemplo, a posição do país no continente e o caminho que este deve seguir no seio da União Europeia. A crise de identidade é evidente quando Emmanuel Macron e Marine Le Pen tentam ambos apropriar-se politicamente da figura de Joana d’Arc, a santa guerreira queimada viva em 1431, que se seguiu às primeiras tentativas de o fazer por Jean-Marie Le Pen.

Parece-me evidente que esta disputa identitária se traduz numa escolha entre o passado e o futuro. Resta saber que impacto terá esta discussão no seio da União Europeia e para nós em Portugal.

Imagem de destaque: Apoiante de Mélenchon desfigura cartaz de Macron. | Openverse/@radiowood

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