França e a terceira volta

Semanas depois das eleições presidenciais que deram a vitória a Macron e o melhor resultado de sempre à extrema-direita de Le Pen, a França Insubmissa, de Mélenchon, anunciou uma coligação com os Verdes e os Comunistas para uma alternativa de esquerda. A um mês das legislativas em França, a nossa cronista reflete, em mais uma missiva, sobre o caminho a percorrer até Junho.

Passou já algum tempo desde que falámos. A última crónica foi escrita ainda na incerteza do que se passaria na segunda volta das eleições presidenciais francesas e, confesso, não sabia ainda os turbilhões que abanariam o país de seguida.

Estava em Portugal quando recebi um email que me informava que os meus exames ocorreriam de forma adaptada, uma vez que a minha faculdade, no momento, estava ocupada por estudantes, que protestavam contra os resultados da primeira volta. Calculei que protestassem a ascensão da extrema-direita, mas, ao pesquisar um pouco mais, percebi que o protesto se passava porque diziam que se “recusavam a escolher” sempre entre o menor dos males, entre a extrema direita e o liberalismo autoritário. 

Essa ocupação durou três dias, mas, na altura, outras se multiplicaram noutras instituições, faculdades e liceus. Tive receio, então, que tal se revelasse um discurso promotor do abstencionismo. 

A segunda volta foi marcada por uma campanha que forçou Emmanuel Macron a abandonar o perímetro do seu Palácio, a mostrar-se como  “presidente de todos”. Um debate televisivo fraco, que ganhou com alguma facilidade, falhou em abrir um debate sério sobre os problemas de França e mesmo da União Europeia. Le Pen saiu mais às ruas, para mostrar que não é só uma “mulher de Estado” (como dizia o seu slogan presidencial), mas uma mulher das pessoas. 

Segundo os resultados eleitorais, a estratégia falhou, mas o seu discurso de derrota foi de celebração pelo seu resultado eleitoral mais alto em eleições presidenciais. E definiu os objetivos para o seu próximo resultado: uma vitória nas eleições legislativas.

Alheia ao funcionamento do sistema eleitoral na sua totalidade, calculei que ainda faltasse algum tempo para as próximas eleições. Na verdade, em França, a governação do Presidente e da Assembleia são votadas num período relativamente curto de tempo, sendo que as legislativas tomarão lugar em Junho deste ano. Esta organização adveio da fundação da Quinta República, em 1958, com o general Charles de Gaulle, que pretendia concentrar os poderes no presidente e evitar coabitação e instabilidade política com a governação de outros partidos (desde essa data, a coabitação só ocorreu três vezes).Na verdade, em França, a governação do Presidente e da Assembleia são votadas num período relativamente curto de tempo, sendo que as legislativas tomarão lugar em Junho deste ano.

Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical e líder da França Insubmissa, também deixou evidente no seu discurso televisivo depois da vitória de Macron:

O terceiro turno começa nesta noite. Em junho, podemos vencer Macron. Um outro mundo ainda é possível, se uma maioria de deputados da União Popular for eleita. Elejam-me como Primeiro-Ministro, para um novo futuro comum para nosso povo.”

Jean-Luc Mélenchon

Esta semana, a França Insubmissa já estabeleceu uma coligação com os Verdes, os socialistas e comunistas, inscrevendo-se numa candidatura de esquerda e ecologista, a Nova União Popular, Ecológica e Social (NUPES), que se apresenta como “a maior opositora de Macron“.

Logo no Domingo, 24, as ruas rapidamente se encheram de clamores de vitória, de luzes na Torre Eiffel e de grunhidos de luta para a próxima batalha. Os discursos sobre o atual estado da nação assumiram a forma de mobilizações, e os dias seguintes foram palco de manifestações inquietas, também reveladoras do facto de o voto de muitos eleitores no presidente reeleito terem sido consagrados por um motivo: ele não ser a extrema-direita.

São várias as questões que têm colocado pressão no centro do debate político. Desde a guerra na Ucrânia, à crise climática, à precariedade e às batalhas sobre identidade. 

E, no meio de tudo isso, a vida continua. Faz sol enquanto as trincheiras se vão acumulando para a próxima disputa. Bombardeiam as notícias sobre as reuniões dos partidos que se coligam. Paris continua a ser Paris, enquanto chegam hordas de refugiados, enquanto acontecem manifestações de solidariedade com quem foge dos horrores inenarráveis da guerra. 

Quando deambulo pela zona onde Sartre e Beauvoir bebiam café e, certamente, discutiram tantos assuntos, penso no que eles pensariam sobre esta nova guerra, uma vez que foi durante um período tão turbulento que escreveram. E penso nas linhas de Sartre em Existentialisme et Humanisme:

“Amanhã, depois da minha morte, alguns homens podem decidir estabelecer o fascismo e outros podem ser cobardes ou descuidados ao ponto de os deixar fazer, Se sim, o fascismo será a verdade do Homem e, assim, o pior será para nós.”

Jean-Paul Sartre

E que pior amanhã esse seria.

Imagem de destaque: manifestação da França Insubmissa junto à Ópera de Paris, a 5 de maio de 2018, a propósito das reformas de Macron na lei do trabalho. | Olivier Ortelpa @ Flickr

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